Círculo Vicioso – Parte 1


Escrito por: Caio Gomez

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Agora encontro-me aqui, abrigada pelo mais puro sangue. Pureza a qual não me sinto digna de estar tocando. Mas eu precisava transcender essa virtude. A minha virtude. Esfrego minhas mãos agora purificadas em meu rosto. É como se eu tivesse encontrado enfim a minha essência. Em minha face, sinto o calor deste líquido vermelho esvair-se entre meus olhos. Como raízes de uma árvore que toma conta do solo.

Lembro-me quando o vi pela primeira vez. Era magnífico. O mais belo de todos que se julgam belos. Deturpava a realidade de quem o tocasse, que o olhasse.

Perfeição.

Vinte e dois de março de dois mil e dez

O dia estava claro. O céu azul comportava um Sol fatídico cingido de nuvens. Eu caminhava lentamente em meio a uma multidão de pessoas que seguiam ordenadamente a seus respectivos destinos. Foi quando me deparei com uma criatura que chamou minha atenção. Magnífica. Seus passos reluziam o brilho mais intenso que eu já pude presenciar. Seu aroma caminhou até mim como uma flecha e atingiu todos os meus sentidos. Sinto meus olhos sangrarem. Sinto meu coração pulsar lentamente. A multidão barulhenta parece agora distante. Sinto frio, mas ao mesmo tempo, uma chama repentina dilacera minha alma. O barulho de uma cidade movimentada, em plena manhã de uma segunda-feira, agora nada mais é que um zumbido distante, como o som de uma abelha que procura uma flor para polinizar.

Fecho meus olhos. Não me encontro mais ali. Estou agora em um quarto claro. Uma luz vinda de um ponto distante faz o papel de um Sol reluzente ao meio dia. Paredes brancas são como muralhas em minha volta. Ele estava ali. Distante, mas eu podia vê-lo. Podia senti-lo.

Corro. Mas a cada passo, sinto-me que não sou capaz de alcançá-lo. Ele está longe demais. A luz ali presente agora parecia se desligar. Trevas começam a tomar conta daquele lugar. Ouço uma voz. Uma voz distante, que chega até mim como um grito num entanto assustador. Abro os olhos e vejo um homem portando uma maleta pedindo licença para passar. Eu havia parado e flutuado no ar. Uma fila de pessoas já transitava em minhas costas. Mas, ele… Não o via mais. Para onde fora? Para onde o novo significado de minha vida se direcionou?

 

Mas agora ele está aqui. Sua cabeça em meu colo. Seus olhos parecem que ainda me vigiam. Dou mais uma facada em seu abdômen para certificar-me que ele já não vive mais. Isto é, que ele agora vive em mim. Aquele objeto pontiagudo agora acerta uma artéria. Seu sangue desenha as paredes de seu quarto num tom um tanto mórbido. Fecho seus olhos. Tranco sua alma…

Vinte e seis de março de dois mil e dez

Quatro dias se passaram. Estou aqui, parada no mesmo lugar em que o vi pela primeira vez, na esperança de que ele passe novamente. Já não consigo dormir mais. Nada faz sentido pra mim. Vivo abrigada em um paradoxo. As paredes são a incerteza. O teto, o desespero. Como uma criatura assim, pode viver? O chão não é digno de acolher seus pés. Ninguém é digno de andar ao seu lado. Ah! Como eu queria vê-lo nem que seja por um instante!

Foi então que senti o ambiente mudar de uma forma inexplicável. Ele estava ali. Ele estava perto de mim. Viro-me lentamente, e vejo aquela criatura sentando-se na mesa do restaurante da outra rua. Vejo a garçonete entregar-lhe o cardápio e se retirar. Ele parece tranquilo. Seus olhos refletem uma pureza inigualável. Seu cabelo, cacheado, parece grandes espirais dourados que hipnotizam quem os assiste. Sua pele resplandece. Sua virtude me enlouquece.

Fiquei parada no mesmo lugar durante uns quarenta minutos. Tempo em que o vi pedir um café e comer um pão de queijo. Ele lia um livro de capa preta, com letras rústicas e prateadas. “O Renascer”. Parecia estar em êxtase. Podia vê-lo absorvendo cada palavra. Como alguém assim poderia estar ali, num local tão inadequado para a grandiosidade do seu ser? Ele mais parece uma nova criatura desenhada e polida à mão. Não sou digna de tê-lo. Preciso afastar-me, pois sua presença já começa a me incomodar…

Sigo em direção a um banco branco da praça, que se situava bem próxima dali. Ainda podia vê-lo, mas eu estava em uma distância adequada e assim não o corromperia. Foi então que vi aquele ser levantar e, segurando sua bolsa no braço e o livro na mão, vir em minha direção. O tempo então parou. Eu podia ouvir os ponteiros do meu relógio de pulso marcar cada novo segundo. As folhas das árvores balançavam e produziam um barulho confortável. Um som que me abraçou e me fez suspirar. Fechei os olhos e senti a força de uma adaga de bronze perfurar minha estrutura. Ele estava muito próximo de mim. Eu precisava correr para bem longe, mas os meus pés estavam dormentes. Minhas pernas eu já não sentia mais. A única força que tive foi usada para abrir meus olhos. Ele, que antes estava andando até aqui, agora está sentado ao meu lado.

Continua… 

Próximo Capítulo: Círculo Vicioso – Parte 2

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