Círculo Vicioso – Parte 2


Escrito por: Caio Gomez | Ler anteriormente: Círculo Vicioso – Parte 1

2 clico vicioso

Ainda posso sentir o orifício aberto de sua nuca jorrar sangue. Está quentinho, como um chocolate quente que tomamos nos dias frios. Porém, esse é mais gostoso. Arrasto-me para o canto da parede e o observo. Ele está deitado em minha frente. Curvo-me em direção à sua cabeça e apoio minhas duas mãos, uma em cada lateral. Giro-as levemente, e o som que eu ouço me conforta. O som de seu pescoço quebrar e sua cabeça pender para o lado fora um dos mais belos que eu já pude ouvir…

 .

Vinte e sete de março de dois mil e dez

Ontem eu o segui. Depois de permanecer alguns minutos com ele sentado ao meu lado, eu o vi se levantar e, com sua bolsa nas costas, retirar-se lentamente. Eu esperei ele se distanciar e então comecei a seguir seus passos. Caminhamos separadamente por alguns quarteirões. Três, mais ou menos. Fora uma caminhada difícil, pois minhas pernas pareciam flutuar em outra dimensão somente pelo fato de saber que o chão em que meus pés se acomodavam já tinha sido tocado anteriormente por ele. Seu andar era macio, mais parecia que ele voava com grandes asas brancas acopladas em suas costas. Era um anjo. Um anjo que habitava entre os corruptos.

Ele parou em frente a uma casa de grandes janelas. Seu interior era ocultado por cortinas brancas, e uma árvore robusta habitava em frente ao segundo portão. Seus galhos davam praticamente para a janela de cima, que parecia ainda maior. Ele parou e acessou um dos bolsos de sua mochila. Pegou sua chave, rompeu a integridade da fechadura e entrou.

Eu continuei ali, atrás de um carro, esperando que ele aparecesse na janela. Um grupo de crianças brincava de pique na casa ao lado e um cachorro latia desesperadamente no quintal do seu outro vizinho. A rua era pateticamente calma, sitiada por casas grandes e distantes uma das outras. Palpitei que ele morasse sozinho, pois a porta da frente acumulava folhas caídas da árvore. Mas, pra falar a verdade, quem garantia que aquela era realmente a casa dele? Poderia ser de qualquer um, de um amigo, de sua família… Eu precisava saber mais a respeito dele. Precisava estuda-lo.

Fiquei atrás do carro durante uma meia hora. A única coisa que vi foi sua sombra passando pela janela, nada mais. Gotas de chuva escorriam em minha nuca, e eu então tive que voltar para casa. Antes de sair, memorizei atentamente a rua. Eu tinha que retornar para vê-lo de alguma forma.

Ainda hoje, vou naquele mesmo restaurante que o vi outro dia.

 […]

Viktor. Viktor é o seu nome. Foi tudo que a garçonete pôde me dizer. Sim. Aquela mesma garçonete que o servia naquele dia. Ela me disse também que ele morava sozinho. Sim. Aquela era a casa dele.

Não importava o que eu fizesse ou o que eu deixasse de fazer. Minha mente estava aprisionada nele. Eu já não comia direito e a insônia era minha parceira de cama. As pessoas próximas a mim já não me reconhecem mais. Como isso pôde acontecer comigo?

Como?

 .

            Foram longos dias de descobertas, Viktor. Sei que nós nunca nos falamos, mas olhe agora pra nós. Você é meu. Você é minha relíquia daqui por diante.

            Aproximo meu rosto junto ao dele. Minha mão, involuntária, caminha em direção ao novo detalhe de sua nuca. Enfio dois dedos no orifício desenhado pela lâmina gelada da faca. Giro-os tranquilamente no sentido horário. Posso sentir o nódulo macio de sua coluna, que tenta fugir desesperadamente dos meus dedos. Aquele movimento delicado faz jorrar ainda mais sangue.

            O corte no meu ombro esquerdo começa a me incomodar. Sinto a ardência do vidro que ainda insiste em fazer do meu ombro o seu novo lar. Retiro meus dedos do trabalho artesanal feito pela faca em sua cerviz.

            Meus lábios agora estão juntos aos dele.

 ..

Três de abril de dois mil e dez

Hoje é o sétimo dia em que faço dele o meu reality show. Vejo-o sair de sua casa sempre no mesmo horário, às nove horas. Ele vai até a Universidade no centro da cidade, e fica lá por aproximadamente quatro horas. Ele está estudando psicologia e já está em seu último semestre. Pelo menos foi o que aquele papel, que caiu de sua bolsa ontem à noite, me contou. Ele sai de lá por volta das quatorze horas e almoça naquele mesmo restaurante, que por sinal preciso manter distância. Os funcionários dali já estão achando meu comportamento suspeito. O prato pedido é sempre o mesmo: café e um pão de queijo. Findado o lanche, ele dirige-se até a biblioteca na Avenida Principal e pega sempre três livros. Parece fazer uma pesquisa. Da biblioteca à sua casa, já no fim da tarde. Uma senhora, que palpito ser sua mãe, aparece todos os dias por volta das dezenove horas trazendo sacolas com recipientes claros.

Sábado. Estou aqui parada em frente à sua casa e as nuvens ameaçam liberar seus hóspedes, mas nada irá me impedir de avista-lo hoje. Já não vou ao trabalho há quatro dias, e minha mãe não se cansa de fazer da minha caixa postal sua nova rede social. É sempre o mesmo sermão, “Anne, o que está acontecendo contigo, minha filha?”. Velha idiota.

 .

Quatro de abril de dois mil e dez

Estou desesperada. Ontem não o vi o dia inteiro. A única coisa que eu assistia era sua sombra passar de um lado para o outro na janela de cima. Estou nervosa. Estou aflita. Preciso dar um jeito nisso. Já não me alimento normalmente há dias e as olheiras passaram a redecorar minha face.

Preciso, mas não quero tê-lo.

Não posso.

Não vivo.

Continua…

Próximo Capítulo: Círculo Vicioso – Parte 3

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