Círculo Vicioso – Parte 3


Escrito por: Caio Gomez | Ler anteriormente: Círculo Vicioso – Parte 2

CV - Pt3

Seu sangue é viscoso e escuro. A luz da lua cheia trás ao quarto um tom alucinógeno. Com o ferro do abajur que ele atirou em mim, dilacero sua garganta com três golpes macios. Ele passa a liberar ainda mais virtude. Seu sangue atinge minha face e me faz perder o equilíbrio da visão. Levo minhas mãos ao rosto e tento lustrar meus olhos. O chão agora está carmesim. O quarto, mais alvo que a neve.

Esfrego minhas mãos nas poças acumuladas próximo ao seu corpo e me dirijo até a parede atrás de mim. Com minha mão direita, escrevo o que minha alma insiste em ratificar.

            “Nunca mais”.

Sete de abril de dois mil e dez – hoje

Está tudo arquitetado. Nada pode dar errado. Trabalhei nisso a noite toda. Sei que sou capaz disso. Eu preciso. Eu devo.

Dirijo-me à cozinha e pego a única faca que eu encontro. Jogo-a na bolsa e pego as chaves do portão de minha casa.

“A lua será minha parceira hoje”, penso comigo mesma. E, de cabeça baixa, sigo em direção à casa de minha perdição. A faca é o item mais pesado que carrego. Seu peso parece dilacerar minhas entranhas. Minha consciência já desistiu de me alertar sobre os perigos que essa noite acarretará. Mas não importa, isto deve ser feito.

E será.

[…]

A caminhada foi mais longa do que de costume. Aproximo-me da entrada de sua casa. Sua janela está aberta, e a luz do quarto está apagada. Consigo ouvir o som alto da televisão na sala a exibir um documentário do Discovery.

Amarro a bolsa em minha cintura e agarro-me na árvore. Os anos que passei presa naquele colégio interno que meus pais fizeram questão de me colocar serviram pra alguma coisa. Minha consciência parecia agora me tapear a cada nova investida que eu dava para tentar subir. Enquanto subia, o meu eu descia.

Com movimentos rápidos, alcanço facilmente os galhos robustos que pareciam conversar com a janela.  Acomodo meus pés no encosto e salto vagarosamente no quarto. Meus pés pousam como penas que fogem de um travesseiro rasgado.

O quarto é espaçoso. Uma prateleira de livros e um conjunto de quadros eram os protagonistas do cômodo. A cama estava arrumada e o som do relógio de números romanos fazia meus ouvidos sangrarem.

Desato minha bolsa da cintura e me acomodo em um dos cantos do quarto. Com a faca em minha mão, encolho-me no chão. Minha mente parece vagar em um deserto de incertezas. O meu eu, que ficara lá embaixo, gritava desesperadamente para que meu corpo descesse.

Permaneci imóvel durante vários minutos. Para o meu corpo, pareceram horas. Para minha consciência, dias. A luz do andar de baixo apagara-se e a escada anunciava que alguém estava subindo.

Era ele.

O brilho daquela noite clareava todo o quarto, e Viktor nem fizera questão de acender a luz ao adentrar. Ele se dirigiu à janela para admirar a beleza do astro noturno e eu levantei e caminhei lentamente ao seu encontro. Estava de costas, e com suas mãos para trás. Vestia um pijama e estava pronto para dormir. E ele iria. Para sempre.

Meu coração agora palpita lentamente. Os músculos do meu braço elevam minha mão em um ângulo reto. A faca agora está mais leve. Tudo está mais leve. Mas, de súbito, um tiro acerta minha testa e me faz perder a noção do tempo e do espaço: sua voz. “Ah! Que noite linda”, suspira. Era perfeita. Macia e aveludada. O tempo parou. Os segundos tornaram-se minutos. O barulho do relógio passou a contracenar com as batidas do meu coração. E minha mão, que se perdera em outra dimensão, acaba tomando um novo rumo. Em vez de acertar sua nuca em um golpe mortal, a lâmina escolhe o seu ombro.

O barulho decorrido aterrorizou meus ouvidos. Seu grito de dor rompeu a calmaria da noite. Ele vira em minha direção com a faca ainda presa em suas costas. Fora a primeira vez que fizemos contato visual e isso me deixa extasiada. Vejo-o tropeçar e cair sobre a cômoda. Eu permaneci imóvel, mas o que me fizera voltar à realidade fora o que estava por vir a seguir. Vejo os vultos de um arremesso. Senti um abajur acertar meu braço e o vidro romper-se dentro de mim. A dor foi intensa.

Ele se levanta, cambaleando em minha direção. Seu olhar de fúria me fez sentir agora mais viva. Seu grito rompe sua garganta mais uma vez, mas por poucos segundos. Permaneci na janela, e, enquanto ele tentava chegar até mim, cravei minhas unhas em sua face, ação que o fez tropeçar e atingir sua cabeça em uma das laterais da janela. O barulho da madeira tapeando seu crânio foi seco. Confortante.

Desmaiou.

Com ele agora no chão, empurro a faca em suas costas para acordá-lo. Precisava que ele estivesse despertado no momento de sua morte. Mais um grito ecoa no quarto. Um grito desesperado. Um grito que se silenciou com a entrada da faca afiada em sua nuca. Atinjo-o duas vezes.

Três.

Quatro.

O sangue jorra ferozmente de sua nuca.

Estava feito.

Estava acabado.

[…]

Agora encontro-me aqui, abrigada pelo mais puro sangue. Pureza a qual não me sinto digna de estar tocando. Mas eu precisava transcender essa virtude. A minha virtude. Esfrego minhas mãos agora purificadas em meu rosto. É como se eu tivesse encontrado enfim a minha essência. Em minha face, sinto o calor deste líquido vermelho esvair-se entre meus olhos. Como raízes de uma árvore que toma conta do solo.

Lembro-me quando o vi pela primeira vez. Era magnífico. O mais belo de todos que se julgam belos. Deturpava a realidade de quem o tocasse, que o olhasse.

Perfeição…

FIM

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