Parábolas do Carteiro das Lamentações


Escrito por: Carlos Monteiro

morte

Para resgatar sua vida, precisa encontrar o recanto dos sentimentos…

É imprescindível a vida. Mas deixar de lado a mesma, negando um coração, destruindo seu sentimento, abandonando o amor, pode virar uma rotina na jornada dos sobreviventes.

Hoje eu compreendo uma história lamentável, sou infeliz. Nas veredas de meus passos, pensei em desistir, encontrei meus erros, minhas dores, minhas lamúrias, meus gritos… Minha alma era um celeiro de ideias mortas exterminadas. Como meus objetivos foram inocentes e sem ambição. Este sou eu, mesmo não querendo ser.

Todavia, caminhando na morte dolorosa, sucedendo todas as madrugadas com pavor da escuridão, com medo de concretizar um futuro abastado de fracassos, resolvi fazer uma viagem de desarmonia, iria derramar as últimas pétalas da minha alma. Coloquei a esperança em um ato covarde, liquidar com esta existência. Aniquilar meus suspiros, matar meu coração da devassidão do desencontro e do abandono. Só que minha falta de coragem foi avassaladora, chorei novamente.

No caminho de volta, caminhava a percalço, foi aí que, notei que tinha alguém me seguindo. Virei imediatamente na nevoa do cair da noite. Questionei quem estava me seguindo:

— Quem é você? Porque me segues? — Naquela altura da minha vida, nem me importava em quem era, poderia até me ajudar a acabar comigo.

Não houve resposta alguma, o vulto ficou escondido nas sombras. Percebendo que aquele cara não sairia dali, gritei…

— Saia daí! — Elevei o tom de minha voz, nesta hora ele apresentou sua doce voz. — Acalma-se senhor.

Meu pensamento ecoou longe, como assim calma. Quero me matar, e aparece esse infeliz. Então, ele surgia da escuridão, tinha um rosto branco, mas o escondia com a touca, estava de blusa, calça jeans surradas, um tênis branco e uma pequena bolsa do lado. Fitei-o de todos os ângulos. Até que, injuriei e reclamei:

— O que tanto olha!

Fiz uma careta para deixar o ambiente apreensivo.

— Eu observo a morte com carinho, eu vejo um coração sem solução e uma alma perdida no horizonte da vida. — Abriu um leve sorriso

Indignado com aquilo, e lembrando que meu intuito era me matar. Fiz a última pergunta:

— Que é você? — Forcei um tom agressivo.

Antes de me responder ele abriu sua bolsa, pegou um caderno e uma caneta tinteiro. Apoio o mesmo no joelho e começou a escrever. Me irritei com aquela ação.

— Droga! Quem é você? — De uma forma retórica questionava a ação.

Insisti tanto que ele exclamou algo:

— Muitas vezes, nesta vida, é preciso errar para descobrir qual o caminho a seguir. — Não olhou para mim e nem parou de escrever.

Fiquei mais nervoso;

— O quê!?

Ele levantou a cabeça, deu para ver um pouco mais de seu rosto.

— Uma coisa é certa: A cada erro, uma experiência e, a cada experiência mais um conhecimento obtido.

Não quis ficar ali ouvindo baboseira de um louco. Virei e fui embora.

Percebi que ele ficou lá atrás me olhando, aquilo me perseguiu tanto, que resolvi voltar. Assim que voltei ele me respondeu:

— Quer saber quem eu sou? — Sim! — respondi.

Ele sentou no chão, pedindo para sentar ao lado dele. Quando o fiz, ele me agrediu com suas palavras…

— Sou um consolador dos que choram, principalmente porque foi minha última promessa para encontrar a inevitável felicidade.

Fiz uma cara de não entendimento. Pedi para ele prosseguir.

— Minhas palavras são radiadas pela imensidão do meu amor. Diante disso eu ando granjeando alguns tesouros, alguns espíritos.

Tudo beirava de uma estranheza jamais vista na minha vida. O estranho é que ele me confortava. Ele discorreu sobre caminhos, o cultivo da caridade, de ajudar os necessitados, de parar de reclamar e viver mais, e constar que, em cada fim a um começo, entendendo que o tempo e o futuro são armas do progresso da alma, transformando nossa vida em uma constância de aprendizado, assim é feita a estrada da vida.

No final, ele se levantou, elevou a mão para me ajudar a levantar. Quando estendi minha mão para ele, o mesmo confabulou:

— Por onde passe, faça-te de uma catapulta para erguer e impulsionar os caídos…

Abri um leve sorriso, toda aquela situação me fez repensar um pouco a minha vida, de tal maneira que concretizei que ele não era tão louco. Antes de ele ir embora, arrancou a folha do caderno, onde escreveu algumas coisas, me repassando. Logo, ele se foi, eu nem questionei novamente quem era ele. O vi se perdendo no silêncio da noite, nas sombras da madrugada, no beco das lágrimas.

Abri o papel, que dizia o seguinte:

 “Eu uso os fios invisíveis do meu coração para tecer meu texto. As palavras aqui contidas têm vida, inexplicavelmente com sabor de vida. Meu amigo, se assim posso te chamar. Pense em sua renovação, lápide uma nova coragem, seja o mais forte. Coloque esperança na sua alma, debata com o seu desespero, e creia na vitória da sua vida, com paciência tudo será revelado. Uns dizem que a vida pode ter a salvação, teu ser agora és a vibração da alma, enquanto eu, sou o Carteiro das Lamentações!”

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