PAPAI NOEL FOI SEQUESTRADO!


Escrito por: Carlos Monteiro

 

Uma manhã calma e regada de alegria no ar.

Júlio César tinha acabado de acordar, estava no banheiro quando ouviu sua mãe bater na porta.

– Julinho?

Júlio não gostava deste tratamento da sua mãe, diminuir seu nome. Já fazia um tempo que estava tomando a decisão de arranjar outro lugar para morar, aquele apartamento estava ficando pequeno para ele e sua mãe. Naquele dia em especial, estava de folga e era véspera de NATAL, logo, prometeu que seria educado e legal.

Abriu a porta com o rosto molhado e com a boca cheia de pasta de dente, grunhiu:

– Oi, Mãe!

Sua mãe ficou olhando nos olhos do seu filho, que estava apenas de cueca e cabelo bagunçado…

– Acordou agora? Menino folgado. Fica dormindo até tarde, dá nisso.

O jovem ficou com uma face desdenhando sua mãe.

– Estou lhe acordando para me ajudar a fazer as coisas para nosso NATAL, mais tarde sua tia e primas vão vir e quero tudo feito.

Júlio conhecia sua mãe, queria tudo do jeito dela, no seu tempo, com sua velocidade… Concordou com a cabeça e fechou a porta do banheiro.

Durante a manhã e tarde, fizeram pratos doces e salgados, no cardápio teriam um peru, salpicão de frango, arroz com uvas passas, com muito vinho, além de uma torta de limão com uma gelatina mosaico.

A mãe do Júlio César estava contente, primeiro porque seu filho não estaria trabalhando e segundo, por receber sua irmã e sobrinhas. Nos últimos dois anos andaram com um relacionamento estremecidos, recentemente se perdoaram e esse NATAL seria uma grande oportunidade de resgatarem o amor fraterno e familiar. Júlio sabendo disto, se esforçou para que tudo desse certo, precisava fazer aquele NATAL ser algo incrível. Mesmo não gostando dessa data.

Sua mãe já tinha chorado abraçando seu filho, sentado para refletir e entrado em vários conflitos existenciais como: A vida era dura demais – Porque sofria tanto? – Era devota de Deus e não entendia porque certas coisas aconteciam – Porque com ela? – Ano que vem tudo mudaria? – Não era feliz – Queria reclamar menos da vida!

Instantaneamente seu filho passou por ela, pegou seu menino pelo braço, passou sua mão em seu rosto, olhou em seus olhos e disse:

– Meu filho, você é a coisa mais sagrada que tenho. Amo – te.

Júlio César ficou encabulado por tal gesto. Silenciou – se e se sentiu agradecido por ainda ter uma mãe, uma mulher que o ame desta forma.

– Mãe, é o espírito natalino que te deixa mole.

Ela empurrou seu menino.

– Cala boca! Estou falando a verdade, estou falando como uma canção que sai do coração procurando meu filho, uma luz em minha tempestade escura, uma obra de arte que posso tocar.

Ele sorriu.

– Mãe, já deve ter bebido algo.

Sua mãe arregalou os olhos e foi para cozinha.

No momento que se seguiu, ouvimos um barulho no bolso esquerdo da calça do Júlio. Era seu celular da empresa, ele tinha dois aparelhos para não misturar as pessoas, no seu bolso direito ficava seu aparelho pessoal e familiar, no bolso esquerdo ficava o aparelho profissional. Se retirou da sala e foi até seu quarto.

Atendeu.

– Clóvis? O que houve? Eu disse para não me ligar hoje e nem amanhã. Dia 24 e dia 25 é com a minha família.

Depois de uma quietação, ouvimos a resposta. Uma voz suave.

– Desculpe, chefe. Não era minha intenção. Apareceu um cliente querendo um produto para hoje e precisamos da sua autorização para colhermos a espécie.

Júlio se enfurece.

– Não pedimos para Tália avisar todos os clientes que não estaríamos trabalhando no final do ano, inclusive, não vamos emergir nenhum produto, independente do pagamento ser alto?

Do outro lado da linha, Clóvis concorda.

– Eu sei disso, só que esse cliente é diferente senhor. É UM CLIENTE EXTRAORDINÁRIO.

Júlio fecha os olhos e morde com raiva seus lábios.

– Não acredito. UM CLIENTE EXTRAORDINÁRIO. Pensei que eles tivessem em recesso. “Merda”.

Clóvis, mantem a calma para não afetar seu chefe.

– Clóvis, qual o pedido deste cliente?

Ressabiado em falar, Clóvis hesita por uns instantes. Júlio austero pede a resposta.

– Então senhor, o pedido é meio excêntrico.

– O que é?

– Cliente pediu o PAPAI NOEL.

Júlio César ficou desconectado por segundos…

– Como assim, PAPAI NOEL? Que porcaria é essa. Júlio vai até a porta do seu quarto e fecha, antes que sua mãe entre sem bater. – Além deste pedido, o que o cliente deseja?

Clóvis suspira forte.

– O cliente deseja o PAPAI NOEL e uma sala ambiente, uma mesa com duas cadeiras rústicas, papéis de parede natalinos, cores vermelhas e verdes, e uma moça fantasiada de rena, e tem que acontecer meia – noite.

Júlio tira o telefone do ouvido e começa a refletir, passa mão na cabeça e volta a ligação.

– Clóvis?

– Sim.

– Eu autorizo o pedido. Já tem noção onde vai recolher esses pedidos?

Clóvis chama de fundo Tália queria a lista.

– Pronto senhor! O PAPAI NOEL iremos recolher um senhor que já estava em nosso sistema, um cliente tinha feito o pedido e mudado de ideia, a sala ambiente é o de menos, sabemos quais lojas ir, e a moça, existe uma menina de 19 anos, branquinha, que veio parar em nosso sistema depois que ela perdeu os pais em um acidente. A equipe está preparada para sua autorização.

Júlio com veemência ordena.

– Faça acontecer.

 O dia se seguiu como deveria ter ocorrido na casa do Júlio.

Sua mãe feliz com a ceia de NATAL, lá estavam sua irmã sorridente, suas sobrinhas alegres e seu filho afortunado. Depois da meia – noite, todos se abraçaram perto da janela para ver os fogos estourando pela noite.

Júlio sempre se emociona com esses dias, imagina os fogos sendo estrelas explodindo e trazendo novas energias e rumos para todos que contemplam aquele momento. A noite foi perdendo sua força, e os olhos e corpos das mulheres se renderam ao cansaço, Júlio foi o último a dormir. Antes de fechar seus olhos, agradeceu por mais um dia de vida.

¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤¤

No dia seguinte, Júlio foi para empresa.

Chegando na empresa Clóvis o recebeu.

– Clóvis, o CLIENTE EXTRAORDINÁRIO já foi?

– Sim, senhor. A Tália vai fazer o relatório. Se não se importar, estarei indo para casa. A equipe da limpeza e despejo foram acionadas.

Júlio abraça seu amigo.

– Vá descansar, você merece. Passe em meu carro, eu lhe trouxe uma pequena ceia do meu NATAL.

– Obrigado, senhor.

Em seguida Júlio vai até a cela. Tália estava com seu caderno fazendo anotações. As equipes que Clóvis tinha comentado ainda não tinham chegado.

– Bom dia, Tália.

Uma voz alegre responde.

– Bom dia, senhor Júlio. Aproveitando já vou lhe entregar o relatório.

Existe um cheiro nada agradável no ar.

– O CLIENTE EXTRAORDINÁRIO queimou a “tadinha” da rena, por isso o cheiro. Coloque essa máscara.

– Não precisa. O relatório, por favor. Apressou Júlio.

– Senhor, que manda! O PAPAI NOEL foi torturado com uma faca bem afiada, CLIENTE arrancou a barba do NOEL, e depois começou a cortar seus membros, quando fazia isso, tinha músicas natalinas, e o CLIENTE gritava compulsivamente: “Eu não acredito no NATAL E NO PAPAI NOEL”. Que ele era uma falsa, e que se ele existisse, que usasse sua magia. Ao cortar seus braços, foi para seu saco alegando que iria abrir o saco do PAPAI NOEL, para achar os presentes que ele guarda, em seguida, abriu a cabeça do NOEL com uma picareta. Nesse instante a rena, chorava soluçante, CLIENTE colocou gasolina no corpo nu da rena e ateou fogo. Ah, berrou as seguintes palavras: “Bate sino pequenino, sino de Belém, já nasceu deus menino, para nosso bem”.

 

Fim do relatório, senhor!

Júlio seriamente olhava a cela.

– Você está bem, Tália?

Ela pegou no braço do seu chefe e levou para fora da cela.

– O senhor não acha que certos pedidos não são loucura? “De gente doida”?

Uma alegria contagia Júlio.

– Não estamos aqui para avaliar os pedidos e desejos de nossos clientes. Creio eu que, as vezes sim, alguns pedidos fogem da realidade. Antes de sair, me faça um favor, mande mensagem para ULISSES, diga que precisamos elevar a taxa deste CLIENTE EXTRAORDINÁRIO, e que ENOQUE não se torne uma empresa de abusos e vantagens…

– Sim, senhor.

Tália sai da cela. Júlio ainda permanece na cela analisando o ambiente, olha o PAPAI NOEL fatiado, o corpo carbonizado da rena. Pensa:

“Anseio viver muito, acredito na esperança de um ano melhor, um novo ano que poderei contemplar mais ainda seu rosto. Eu te amarei para sempre, não importa o que aconteça, o céu não vai separar nosso amor. Enquanto eu respirar, meu coração será uma lâmina cortante, que cortará na raiz, meu fracasso e minhas dores”

 

 

Anúncios

Um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s