Resenha: ELA


Escrito por: Gabriel Marçal

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SINOPSE

Theodore (Joaquin Phoenix) é um escritor solitário, que acaba de comprar um novo sistema operacional para seu computador. Para a sua surpresa, ele acaba se apaixonando pela voz deste programa informático, dando início a uma relação amorosa entre ambos. Esta história de amor incomum explora a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia.

Resenha do Filme

Para assistir “Ela” com clareza não é preciso referências. Não é preciso ter visto algum filme do ‘Spike Jonze’. Porém, é preciso ser forte para digerir as emoções que pode – lhe trazer. Não estou dizendo que é um filme para pessoas com estômago, que é um filme pesado ou que, você precisa ter café ao seu lado para não dormir. Pelo contrário, “Ela” possui uma dinâmica incrível, é um filme levíssimo, divertido, de uma enorme beleza. A ideia central, baseia-se em um homem solitário (interpretado brilhantemente pelo sempre ótimo Joaquin Phoenix) que terminou um relacionamento, e logo após, inicia começa um nova união com um sistema operacional, pode parecer estranho, mas é a pura verdade.

Ao contrário da estranheza inicial, o filme quebra tudo isso, trazendo um relacionamento mais humano do que nunca. A obra é um ataque a certos romances que banalizam o amor, tratando-o superficialmente como instrumento de entretenimento puro. As conversas que Theodore tem com seu computador, Samantha, são simplesmente uma das formas mais bonitas de demonstração de duas pessoas, sim, pessoas se conhecendo e consequentemente se gostando, se apaixonando. Samantha, com a doce voz de Scarlett Johansson, é uma das figuras mais humanas do filme, seus sentimentos, inseguranças, seu senso de humor, sua doçura, fazem o espectador concordar plenamente em certos momentos do filme em que é afirmado (por Theodore) que o relacionamento dos dois é um relacionamento real, de homem e mulher, e não que ela é apenas uma inteligência artificial com emoções programadas. Talvez aí, nós encontramos a mágica do filme, que é não acontecer o que seria esperado. Theodore pensar que está se apaixonando por emoções programadas. Isso não acontece, o filme termina e a certeza de que temos é que ele se apaixonou por uma mulher de verdade, só que de uma forma um pouco diferente.

O relacionamento dos dois no início, é incrivelmente apaixonante, tão leve e cheio de felicidade. As conversas dos dois fazem parte do roteiro brilhante de ‘Spike Jonze’ ganhador do Oscar. Tão perspicaz, ele toca na ferida do sofredor, tratando de questões sobre o amor tão profundamente, que faz qualquer um se identificar com todas as ideias sobre sentimentos, que nós sentimos mas não pensamos, coisas realmente complicadas. É lindo de ver, como essas questões são abordadas, ora pela conversa entre os dois, ora em silêncio, ou na trilha sonora, aliás uma linda trilha sonora. Mas o filme, não é só sofrimento e mostra como ‘Spike Jonze’ soube aproveitar e explorar a proposta inicial tão criativa que “Ela” possuí. Como por exemplo, a possibilidade de Theodore conseguir conversar com ela em qualquer lugar, ou quando Samantha tem a ideia de ter um corpo, e por isso, conhece uma mulher que faria isso por eles, sendo o seu corpo. Essa necessidade de Samantha ter um corpo é uma das questões mais delicadas e proveitosas do filme, levantando questões interessantes, como Theodore não precisar de uma companheira de corpo e alma, ou Samantha sentir que não o satisfaz completamente tendo apenas a “alma”, ou nem isso. Todas essas situações, e outras, são amplamente exploradas no filme, como a cena épica de sexo entre os dois, em que nos questionamos até que ponto o sexo é apenas corporal já que Samantha sente prazer, e praticamente tem um orgasmo durante a cena.

Talvez o mais incrível de “Ela” seja simplesmente, o fato de que ele trata de uma história de amor e não é bem o que poderíamos chamar de um romance, e sim, uma película sobre sentimentos, mais puro do que nunca. No meio de todos essas compaixões tão humanas, estão as máquinas, a tecnologia, toda a evolução técnico-científica do ser humano, criando uma sobreposição nos sentimentos humanos, ou seja, a máquina e essas emoções, que ainda existem numa era dessas. O vídeo, então mostra simuladamente como seria o futuro do homem com tanta tecnologia, mas ainda com as suas necessidades básicas e suas necessidades emocionais, ambas totalmente afloradas como sempre. Está aí outro ponto incrível, um filme que pode servir tanto para entreter, quanto para pensar, sofrer, admirar e por que não, estudar? Sim, podemos tirar muito de “Ela”.

Apesar de sua fotografia extraordinária, incríveis lugares em que se ambienta, é sim, o profundo roteiro cheio de ideias de ‘Spike Jonze’ o encaminhamento da história são as melhores coisas do filme, e que o tornam como uma narrativa épica que pode ficar por muitos anos, como um diferente tipo de romance que pode se tornar um clássico. Com todas as questões surgindo, o relacionamento de Theodore e Samantha fica cada vez mais profundo, mas também mais estreito, e é pináculo que ela revela que tem – se apaixonado por mais de 400 pessoas diferentes, graças a sua inteligência aparentemente infinita, a mesma inteligência que a fez ler um livro sobre nomes de bebês em milésimos de segundo, que arrumou toda a vida de Theodore com seus e-mails, e que conseguiu contatos para que ele publicasse um livro. Essa mesma intelecção pode conversar com inúmeras pessoas ao mesmo tempo, e ela acaba se apaixonando por outras pessoas ao redor do mundo.

O encaminhamento triste da história acentua a fragilidade desse relacionamento, e a vulnerabilidade de todos. ‘Ela’ é ao mesmo tempo, um filme belo, e também inquieto, com tantas ideias que em seu decorrer vão surgindo, e que faz o espectador se afogar em questões que ele mesmo vai se indagando. Essa sobreposição do inquieto sobre o garboso é a mesma sobre a tecnologia, sobre as emoções e necessidades humanas, e é isso que torna ‘Ela’ tão único e genial, a sua capacidade de em apenas uma obra cinematográfica enfrentar questões do passado, do futuro, sobre a vida, ou sobre a morte, e tudo, graças a sua narrativa, ao mesmo tempo tão incomum, mas tão comum, como todo relacionamento acaba sendo. Se os românticos do século 19 estivessem vivos, certamente sentiriam inveja dessa obra-prima, linda, genial, tocante, perturbadora, e não existe melhores adjetivos para um filme que nos muda, nem que seja numa pequena parte, mas que muda algo dentro de nós.

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