O noivo


Escrito por: Luiz F. Nascimento

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O ônibus que ia para “TEPIC” estava vazio como de costume. Logo tomei um lugar perto da porta, eu e minhas sacolas. Uma velha amiga iria se casar daqui a uma semana e eu seria sua madrinha de casamento. Quando o pessoal da rádio ficou sabendo, os mais diversos comentários brotaram:

Ora, ora! Quem diria que aquela lesada ia conseguir um marido?”

 “Na primeira trepada o cara vai desistir”.

Entre xingamentos e comentários machistas, a notícia chegou, e perdurou enquanto ainda tinham imaginação para aquelas brincadeiras idiotas, que tanto divertiam suas mentes fúteis e desocupadas no horário de intervalo. Ela tinha trabalhado conosco durante alguns meses no ano passado. Infelizmente acabou por derrubar café no colo do chefe, que era um babaca, esnobe e estressado… Com esta desculpa, a demitiu.

Conheci a Elize ainda na escola, quando a salvei de um grupo de alunos que se empenhavam fortemente em fazer com que sua vida fosse pior do que já era. Ainda não entendo, como consegui dispersar aqueles idiotas. Acho que, eu era bem forte para uma menina. Mas o importante é que depois daquele episódio eu e Elize nos tornamos melhores amigas. Mas nem sempre pude ajudá-la a se defender. Então, aqueles seus olhos altamente espaçados e suas pernas longas e magras continuaram a lhe causar sofrimento, e assim continuaria até que ela tivesse maturidade para entender que seu corpo era daquele jeito e que o que lhe restava era aceitá-lo. Desta forma, tendo a auto estima que tanto lhe faltava.

Hiram, o noivo, tinha em seu coração algo poderoso que lançou sobre os problemas e mágoas de Elize a fumaça do esquecimento momentâneo. Deixando-os assim envoltos numa grande nuvem cinza que habitava atualmente os confins dos céus tão vulneráveis de sua mente e alma. Sempre muito ingênua e fantasiosa, passou a vida acreditando e esperando pelo “príncipe encantado”. E este finalmente chegou… Ao que tudo indicava.

— Patético?

— Acho que não.

 Creio que isso seja apenas algo no que ela decidiu acreditar para que sua vida fizesse sentido. O cara realmente era do tipo príncipe encantado, seu charme era um pouco peculiar, seu cabelo escuro, liso e médio, caia levemente sobre a pele morena de seu rosto, e contrastava com seus olhos grandes e negros, nos quais habitavam a sedução e a profundidade de uma personalidade forte. Alto e de músculos definidos, seus braços a cobriam com carícias e mais carícias nas histórias que ela me contava. Diferente de todos os homens que conheceu antes, este havia a conquistado desde o primeiro momento em que o viu. Soube que seu destino fora traçado ali, naquele momento e que já não poderia se desligar dele. O amor que sentia era como um parasita que tinha feito morada no coração de Hiram. E não queria jamais se desgrudar dele, tinha encontrado o hospedeiro do qual poderia usufruir compartilhando de uma relação igualmente benéfica. Entretanto, havia algo de estranho sobre ele, sua origem. Não tinha família e nem amigos, apenas um  cachorro negro que sempre o acompanhava. Ela não quis insistir muito naquilo, pois ele era bom demais para ser questionado. Era perfeito. Tudo o que interessava era que ele estava ali, com ela. Nem em seus sonhos mais ambiciosos imaginou ter um homem assim ao seu lado. Particularmente, eu sempre achei aquele cara meio esquisito. Lembro que um dia fui visitar a Elize, mas ela tinha deixado Hiram em casa e foi visitar sua mãe, ou algo que o valha. Ao me aproximar  ouvi os gritos desesperados do cachorro e corri para abrir a porta, que para o meu azar não estava trancada. Quando olhei para o chão vi o animal ferido ainda gemendo. Hiram se aproximou de mim com os olhos cheio d’água e com as mãos sujas de sangue. Tinha uma expressão de desespero, estava em estado de choque, repetia quase num sussurro: Eu não posso controlar. Eu não posso controlar.  Quando saí da casa, eu é que me encontrava em estado de choque. Não consegui dormir pensando no acontecido. Quando contei para Elize, ela se negou a acreditar. Depois inventou qualquer desculpa para justificar o ato no noivo. Ela preferiu fechar os olhos para aquilo, assim como fingia não se lembrar dos constantes acessos de raiva que o marido tinha, tudo em nome de seu cego amor. Sem que eu percebesse o ônibus tinha lotado. Aqueles pensamentos haviam me embrulhado o estômago. Foi quando um senhor esbarrou em mim e me tirou daquelas memórias tão incômodas. Olhei pela janela e vi que já estava quase na hora de eu saltar. Levantei e cambaleei até a porta tropeçando em minhas sacolas até conseguir, com um pouco de esforço, descer do ônibus. Toquei a campainha daquela casa pequena porém muito convidativa. Depois do terceiro toque ela gritou em resposta e desceu correndo, quase caiu. Abriu um largo e torto sorriso ao me ver e me convidou para entrar. Depois de eu entregar os presentes a Elize, ela começou a me falar de como Hiram seria um bom marido. Estava convicta disso. Falava do noivo como uma mãe fala que fala do filho que está indo para a faculdade. Me disse que ele lhe trazia uma rosa todo dia depois do trabalho e que se sentia bem em servi-lo,assim como uma esposa deve o fazer. Tinha valores e conceitos que eram frutos da educação que sua mãe exageradamente rígida e seu pai machista tinham lhe dado. Em seus momentos pensantes fazia planos para toda uma vida. Nunca tinha conhecido alguém como Hiram, e tudo que queria era agradá-lo para poder assim construir uma vida feliz com ele. Quando questionei sobre a vida sexual do casal ela me disse que ele não gostava da ideia de não poderem fazer sexo antes do casamento. Assim como Elize queria.

 “Houve um dia em que ele se aproximou de mim com um desejo tão voraz que me espantei. Ele sabia qual era minha posição sobre isso. Mas mesmo assim insistiu. De seus olhos eu poderia ver as chamas de um repentino e poderoso desejo que queimava dentro de si. Por um momento todas aquelas características que faziam dele um príncipe sumiram e não conheci mais meu próprio noivo. Ele apertou meu braço e me disse que eu pertencia a ele, mas como que em um despertar aquela chama se apagou de seus olhos. E ali estava de volta o Hiram que eu conheci. Claro que depois de um tempo eu entendi que ele é um homem e aquilo é natural.” Depois daquela conversa me senti estranha e me levantei para ir ao banheiro. De repente me senti tão mal, era como se algo estivesse errado. Meu reflexo no espelho já não correspondia a realidade, por um breve momento  minha mente se desligou de meu corpo e me sufocou com imagens turvas. Foi tão inquietante e desesperador, havia sangue por toda a parte, e pude ver aquele pequeno brilho metálico. Quando voltei a si, quase desmaiei. Creio que Elize não ouviu o barulho, pois estava gritando com o fotógrafo pelo celular, pelo que pude perceber. Enquanto eu lutava para tentar entender o que estava acontecendo comigo, ouvi alguém entrar no quarto. A princípio não soube quem era…

— Hiram! O que você está fazendo em casa a essa hora?

 Não houve resposta de Hiram, que apenas sentou-se numa cadeira no canto do quarto.

 — Já liguei para o fotógrafo e para o Buffet, está tudo certo.

Continuou Elize, absorta nas coisas de seu casamento. Como Hiram continuou calado, no canto do cômodo, ela parou o que estava fazendo, abaixou o vestido que tinha em mãos e o olhou. Seu rosto estava inexpressivo, seus olhos vazios se fixavam no nada com a maior concentração enquanto batucava freneticamente os dedos na cadeira. Ela já havia notado aquele comportamento antes.

— Hey. O que há de errado com você?

— Você, está linda, meu amor. Linda. Falou Hiram com uma voz mais serena do que de costume.

 — Como pode dizer isso? Eu estou horrível. Vamos. Levante daí e me dê um beijo.

Hiram se levantou e se aproximou de Elize. — Coloque nossa música, querida.

 — Mas Hiram, eu ainda tenho tanto a fazer, tenho que ligar para a costureira e para o salão…

Ele colocou a mão sobre seus lábios e a calou. Os braços de Hiram em sua cintura não eram a única força que a atraía para junto dele. Em seus olhos havia um magnetismo que lhe prendia em seu coração como um belo pássaro numa gaiola. A essa altura eu já sabia quem estava no quarto junto com minha amiga, o que só me fez sentir-me pior. Aquela sensação estranha foi aumentando ao passo em que a música avançava no cômodo ao lado. Por um momento achei que a batida de meu coração tinha – se sincronizado com aquele som. Era como se os astros estivessem a ponto de se colidirem sobre minha cabeça. Era algo forte e que havia sido selado há muito tempo. Tudo estava previsto. A explosão era iminente.

— Fique calma, querida. Não tenha pressa. Dance comigo.

Elize continuava a estranhar o comportamento do noivo, mas acabou por se entregar em seus braços e deitou a cabeça em seu ombro.

 — Eu te amo, ele sussurrou em seu ouvido. Elize não pôde  responde-lo. Apenas abriu sua boca em um gemido abafado. Ela sentiu a lâmina gelada penetrar sua barriga, e naqueles poucos instantes se deu conta de que não foram apenas seus órgãos que foram feridos. Aquela faca havia rasgado o véu de mentiras com que Hiram a cobria todas as noites, e que a fazia ter os mais belos sonhos. Havia destruído a imagem daquele homem perfeito com o qual iria se casar. Havia quebrado o cadeado da gaiola em que estava presa. A música terminou e meu coração já não podia bater mais rápido. Aquela sensação já havia tomado conta de meu corpo e me forçou a abrir a porta.

A imagem de Elize sangrando, jogada no chão, nunca sairia da minha mente. Assim como o remorso por não ter aberto aquela porta antes.

FIM

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