A flor no meu caminho


 Escrito por:Toni le Fou / Participação:Carlos Monteiro

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Gosto de sonhar. Outro dia sonhei com um doce abraço, tive a certeza que naquele instante eu conhecia o amor, meu coração dizia: ” Vais amar eternamente”. — Ah, sonhos impossíveis. — acordei com este pensamento.

Seguindo aquele dia atípico, uma imagem migrava em minha mente, roubava meus pensamentos, um olhar suave, e ao mesmo tempo inocente, intenso e leal, e o brilho daqueles olhos tinha um forte teor de lirismo. Esta lembrança amanheceu após o sonho, meus sonhos roubavam minhas noites, me transformando em um caçador de amores proibidos. Para impedir aquilo, resolvi caminhar, tinha dias que não aguentava mais ser prisioneiro da minha razão, tinha momentos que eu procurava a felicidade nunca encontrada.

Na trilha, recordei dos falsos amores que passaram em minha vida. Muitos. Diante disto, eu sofro por desprezar os corações desprezíveis, ah, quantos delírios, quantos abandonos. Estou fora do mundo, e assim, condenado pelas pessoas que nele vivem. Tenho sede por viver pisando na areia virgem, buscando água, onde não existe. Aqui dentro, sim, dentro do meu peito, habita desertos de seivas.

Prolonguei meu passeio, andando e descruzando as ruas… Vi de longe uma moça, ela estava sentada em um banco. Nem tinha reparado, andei tanto que fui parar próximo a uma praça em frente ao mar. Fui – me aproximando, de perto pude realçar minha visão, era uma menina – mulher. Estava sozinha, seu olhar era tristonho, mas no canto dos seus lábios nascia um largo sorriso. Seus olhos fitavam um horizonte sem vida, sem nada… Meu coração acelerou, minhas mãos suaram, não podendo resistir, sabia que tinha dois caminhos falar com ela, ou ir embora. Fiz o óbvio, fui embora. Só que, a imagem do meu sonho, o olhar, era parecido com o daquele ser do banco. Dei meia volta e fui ao seu encontro, parei na sua frente como um guerreiro.

— “Oi”. falei-lhe com serenidade.

Foram segundos que demoraram para passar. Uma eternidade em instantes.

A menina – mulher sorriu para mim, cerrou os olhos. É como se me conhecesse há tempos… Disse-me:
— Boa tarde amigo. — fez uma breve pausa e continuou: — “Existem vários tipos de felicidades e algumas são apenas momentâneas.”

Fiquei espantado, chocado, “surrealisado” (Nem sei se existe essa palavra), como ela pode expressar tais palavras… No final, fiquei enamorado.

Tive que concordar com aquela afirmação. Pedi autorização para sentar ao seu lado. Após o sim, abria minha boca e pus a falar…

— Concordo contigo. E digo mais, de uma vida amarga, pode renascer uma realidade doce.

Seus olhos me acompanhavam, e os meus ficavam perdidos em seus lábios de seda, e em seus olhos, os mesmos do meu sonho. Na conversa, fui interrompido. Ela apontou para o horizonte, olhei e vimos o sol se pôr. Não sei, várias vezes tinha visto o sol indo e voltando… Mas o daquele dia era diferente. Só confabulei;

— Lindo!

Fui retribuindo em seguido.

— Sim, perfeito.

Eu nunca me senti tão bem ao lado de alguém, ainda mais de alguém que eu nunca tinha visto.

— Quem é você? perguntou ela.

Achei engraçado aquela pergunta, abri uma extensa alegria.

— Sou apenas um homem que está de passagem.

Ela olhou no centro dos meus olhos e indagou.
— De onde vem forasteiro?
Arrumei os meus óculos, e mirando o Sol que descia lentamente na direção do mar… Falei;

— Eu vim de todos os lugares. De onde nasceras a Terra mais longínqua, do Sul e do Norte. Da luz do Sol e da treva da Lua.

Rapidamente ela replicou.

— Em meio à escuridão achaste a luz que tanto procurava? Pois sempre há um motivo de galopar pelos verdes campos! — silenciou – se um pouco, continuando em seguida ­— Gosto de ver o mar à noite e sentir a brisa do vento, olhar as estrelas quando possível. Gosto de ver as nuvens pela manhã e imaginar animais nelas. Gosto de andar descalça e me sentir livre, gosto de visitar meus amores, gosto de dormir com a mente limpa sabendo que fiz o máximo que podia ser feito. Ah, me entristeço com a mesma facilidade que sorrio.

Fizemos uma pausa dramática e eu rompi o silêncio.

— Gostei de você, tenho a impressão de que te conheço, quando na real nunca a vi.

Ela também roubou o silêncio.

— Meu amigo, pode ser que nos conhecemos a mais tempo do que você imagina. Uma estrada de várias mãos, porém de um só rumo.
Pensei em dizer-lhe algo, mas aquela visão que aquela garota fez em tão pouco tempo, me deixou um tanto surpreso e desisti de falar por temer aparentar ingenuidade.

Ela percebeu.

— Não sei se foi impressão minha, mas você estava pensando em falar algo e desistiu…

Comentou.

— Não foi impressão. Estava pensando mesmo. Porém, suas palavras foram tão fortes que o bom senso me impediu de estraga-las.

Confessei-lhe.

Paramos um pouco, olhamos para os lados. Veio uma nostalgia tão estranha. Nossas visões se encontraram novamente, ou pela última vez… Não importa, acabamos caindo em uma risada gostosa.
Ri, como nunca fizera em anos. Recomeçamos a conversa, não pelo início, mas de um novo começo. E pela primeira vez em muitos anos me senti vivo e feliz.

Quando cheguei em casa, tomei um banho, me alimentei e me preparei para dormir. Coloquei minha cabeça no travesseiro, lembrei de uma poesia que minha avó contava. Ela afirmava que ouviu da boca de um Anjo sem Asas.

Ah, hora da paixão,

Nunca te esquecerei…

Seus olhos crescidos e floridos.

Buscam minha alma,

Sem sabor e da cor cinza.

Habito em um corpo que, vives no morrido!

A hora da paixão chegou…

Não, não, não…

Pobre do meu coração!

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