Descanse Dentro Das Chamas 16:27


Escrito por: Sr. Livramento

zzz-atraso

 Não bastasse estar quente, porque era verão, aquela sala era absurdamente abafada. Ninguém dava atenção ao professor já por saberem que não haveria prova daquele conteúdo, ainda que fosse de extremo interesse a todos. Devoravam conversas, canções, conexões virtuais e, mais especificamente, o jantar vindouro.

         – Quatro e trinta e dois. Essa porra não passa… – pensou Anshel, observando o visor do celular, contando as horas para o jantar.

         Anshel, parecendo tão desatento ele compreendia em profundidade os quadrivetores e um pouco da geometria que regia todos aqueles mecanismos complexos, complicados, confusos, capazes de explanar a realidade parcialmente, com uma fração de sua atenção, outra boa parte dela dedicava-se à apresentação de canções ao seu grande amigo, Garrett, o qual, por sua vez, fechava os olhos e descansava, ao som de agradável Papa Roach em seu álbum Getting Away With Murder, recebia massagem nos ombros e nuca pelas mãos da bela Cailyn.

         – Tá bom? Você tá muito duro, parece que carregou peso o dia todo… – comentou Cailyn, ainda apertando os largos e empedernidos ombros de Garrett. Ele apenas assentiu com a cabeça, era de seu maior agrado que aquelas suaves mãos o tocassem quando estivesse endurecido.

         Ao fundo, duas cadeiras atrás de Cailyn, Maxen estava de fronte as costas de Haruki, com quem compartilhava inolvidáveis óperas, acessando-as em seu notebook, ambos usavam um fone de ouvidos peculiarmente extensível, modelo favorito de Maxen; ouvia-se a orquestra e as vozes de onde Anshel estava, ainda que ele não se incomodasse.

         Subitamente o professor se sentou, começou recitando os nomes, de praxe, em ordem alfabética. Ditos todos e respondidos os presentes, saiu o grupo da sala, urgentemente, a caminho do refeitório; deliciar-se-iam com a refeição, daquele porte, mais barata de toda a cidade. Enfileirados, rindo e conversando, aprontavam seus pratos, catavam os talheres à mão e iam às mesas do fundo, sempre vazias, preenchiam-nas com todo carinho e valorosidade do assentamento coletivo.

         Maxen, já de garfo em punho, delicia-se vagarosamente, sempre reclamando da qualidade da comida. Anshel e Garrett comem como irmãos famintos, brincam um com o outro e devoram mais do que devem.

         – ‘Cê vai comer tudo isso? – questiona Maxen, em seu típico tom sarcástico e mandão, usual e previsível.

         – Potencialmente, cara, se eu peguei… – respondeu Anshel, sem atraso de garfo e de resposta, decidido e esfomeado.

         – Então tá bom… – deu de ombros e continuo a cortar seu bife como uma princesa.

         – Palhaço… Não se toca que é mais gordo que eu, imbecil? Você nem aguentou subir a rua correndo, caralho! ‘Cê é um bostinha, velho, precisa ficar grudado naquela vagabunda pra ganhar alguma atenção e nem consegue ficar com ele! Brocha de merda. – pensou Anshel consigo, enquanto comia nervosamente, suas mãos tremulavam, queria arrancar cada dente de Maxen com as mãos, um a um, tão vagaroso quanto aquele filho da puta jantava.

         – Como é mesmo aquele negócio de elipse, hein? – indagou Garrett, aguardando que Anshel o pudesse satisfazer.

         Antes de qualquer palavra dispersar as maquinações internas anshelianas, como num passe mágico, a faca de Garrett desapareceu no ar, após ser brutalmente forçada contra um músculo quase ósseo do pedaço de carne mal cozido que lhe fora servido. Não, a faca não voou por muito, a faca não foi ao chão sem que vissem, a faca teletransportou, a faca desapareceu em pleno voo, sumiu. Anshel notou, manteve-se quieto e apenas riu-se; é preferível esconder o que não se compreende a se enfrentar toda sorte de mistérios. Riram todos e as conversaram transmutaram em pura alegria, divertimento, gargalhos, risos, comédias individuais, inocentes ou nem tanto.

”Olhe em meus olhos, profundamente, vês algum sonho?”.
– Um amigo, pelo mundo. –

 

Ass.: Sr. Livramento

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