Sombra de um Sorriso


Escrito por: Sr. Livramento

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  Gélido, o silente disseminador das palavras acolheu-me em seus infindos braços, sob a sombra do singelo arco que formava uma das quatro limitações superiores do chafariz desativado; ausente fechamento, os arcos eram meramente decorativos da arquitetura remanescente no arruinado ponto de encontros. O brilho de Ré estendia-se sobre o acinzentado mosaico – deveras elegante – que recobria o asfalto, declarando alguma graça ao cotidiano.

  Esforçando a visão com certo receio de não tomar nota dos transeuntes refinados, avistei-a, cabelo parcialmente colorido, registro reconhecível da jovial personalidade. Aproximava-se com as mãos metidas nos bolsos do casaco ainda mais escuro – e mais cinza – que o próprio chão. Sorrio amigavelmente; não pude resistir, pus-me depressa a caminhar em sua direção. Cosidos em afetuoso abraço, pude sentir sua euforia pela respiração que ofegava em meu pescoço, similar ao reencontro perfeito qual imaginara, não fosse a intenção atual divergir do sonho meu. Ilusão, doce como só as ilusões sabem sê-lo. As mãos se haviam separado ao fim do breve cumprimento, nunca realmente se achegaram uma d’outra; bastava proximidade para me fazer sorrir a alma.

  Caminhamos colaterais por grande parte da jornada, vagarosamente, deliciando-nos com a presença mútua. Concebemos e aniquilamos duas dezenas de pilhérias. Riamos como crianças, ou plateias de comediantes. Meio caminho, donairoso amigo lha reconhecera. Trocaram carícias ainda mais íntimas que minha fiel, airosa amizade. Pouco agrado preencheu minha alma; simulado sorriso tomou forma em minha expressão, apenas para agrado da moça e de seu conhecido. Livramo-nos dele ao cabo de quinze, dezoito minutos. Nova alegria – sincera uma vez mais – recobrou meu âmago. A presença de tais sentimentos não me parece tão fugaz quanto muitos dos meus chegados clamam para o mundo. Penso que deveriam atentar para melhores memórias, devido à natureza trágica de suas vidas.

  Despendemos a tarde juntos entre gargalhadas afobadas, risadas sutis, sorrisos amedrontados e mais alguns poucos abraços. Minha brilhante atuação merece destaque neste relato, nem por um só momento ela suspeitou – nem mesmo agora suspeita – que a desejo comigo, para sempre, como minha amada imortal. Objeto de todo meu motivo de vida, força motriz do meu ser. Seja minha! Seja minha para sempre!

  Já minha cabeça recorda dos problemas do amanhecer vindouro. Conturbado sono destitui-me de minhas forças e não almejo mover meu desacreditado corpo para os ofícios diários. Contudo, uma lembrança me serve de motivação e o protótipo de um sorriso resplandece em meu semblante.

 

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