Metamorfo


Escrito por: “Sr. Livramento”

musa_talia

Dedico este humilde e tolo texto à dama do violino, amantíssima, decorosa, entristecida também e, certamente, inspiradora como toda boa musa.

Ele nunca imaginou que ela seria assim, jamais. Mesmo depois de terminar de despejar tudo, ela continuava pedindo mais, continuava ali, acesa, desperta, cheia de vontade, cheia de si, desejosa por seguir em frente com sua função que, inevitavelmente, dá-lo-ia prazer. Com ou sem questionamento ele prosseguiu, deveria pensar sobre aquilo, tinha de ir tomar banho depois de se lambuzar tanto com ela, depois de se divertir, também, pois há muito não se sujava tanto em tão curto espaço de tempo.

 No banho, começou a confabular consigo mesmo, de consciente para consciente, uma conversa sincera – e filtrada, diga-se de passagem – sem limite para devaneios, sem horrores.

– Cara, que caralhos eu to fazendo? – questionou-se, enquanto a água escorria pela lateral do rosto, evitando molhar a orelha. Virou-se um pouco, para molhar a parte de trás e sentir escorrer pelo braço e pelas costas, resfriando-se. – Fazia tempo que eu não me sentia assim, meio idiota, meio livre, né? Saudades da infância. Não, porra! Retardado! Infância tem merda nenhuma a ver com isso, cara. Isso foi lá pelos 16! É! Já indo do segundo pro terceiro ano! Massa pra caralho! Só as novinha, cheio do álcool. Foi massa. Bons tempos! Haha! – finalizou o banho com calma, secando-se lenta e precisamente, sem deixar gotas entre os dedos dos pés. Pôs-se de fronte o armário, decidindo se iria usar camisa ou camiseta naquele dia nem tão quente, nem tão frio.

         Devidamente arrumado, pôs-se a compreender que não havia modo de conhecê-la tão bem antes do ocorrido, não havia como prová-la, testá-la tão intimamente, era realmente necessário passar por tudo isso juntos para, finalmente, conhecerem-se e aprenderem a lidar um com o outro. Mais especificamente falando, ele lidar com ela, porque ela só queria satisfazê-lo, cumprir o que prometeu ser capaz de fazer quando ele a conheceu e a questionou. Datando do conhecimento mútuo, foi paixão intensa; continuava sendo. Jamais pensou que seria tão fácil tê-la em casa consigo, com tão poucas palavras, quase sem tocá-la, sentiu como se nem o pouco tempo que gastou analisando-a e apreciando-a tivesse sido suficiente. Gostaria de ter vivido mais daquela maravilhosa sensação.
Quem é ele, afinal? Ele é Pedro, gerente de um restaurante, um restaurante do shopping perto de sua casa. Tem seus trinta e tantos, não gosta de se vestir muito formalmente, adora música eletrônica e videogames.
Ela? Ela é a cafeteira nova que ele comprou faz dois dias, só teve tempo de usar essa manhã e se sujou todo, porque ela comportava água e pó em partes separadas, ao contrário do que ele pensou.

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