Sala da Esperança – Final


sala escura

14 De Janeiro, 17h30.

O recinto estava escuro, foi em frente, esbarrou em alguma coisa. Parecia uma poltrona. Contínua sua busca por entendimento – segue, segue, segue… Bate na parede, vira, muda o percurso, bate mais uma vez, resolve voltar para trás, bate em outra parede. Desespera-se, grita por ajuda. Ninguém ouve! Ninguém aparece! Nem o senhor Maia.

Andando para o meio, acha a poltrona novamente. Senta nela. Encosta sua cabeça. Fecha os olhos. Voltou com o seu estado natural, a diferença que está sem enxergar e não é sua casa.

Por um instante, teve uma vaga lembrança de sua esposa Lívia. Entretanto, é interrompido por uma voz. Uma linguagem suave. Expressava – se em poucas palavras.

— Escuridão! Coração! Aliança! Tempo! Salvação! Redenção.

Repetia várias vezes…

— Escuridão! Coração! Aliança! Tempo! Salvação! Redenção.

— Escuridão! Coração! Aliança! Tempo! Salvação! Redenção.

Depois da última repetição, volta o silêncio.

Ele se levanta da poltrona. Gritou que queria sair da sala. Voltou a andar. Não encontrava a porta. A voz volta.

— O seu tempo já acabou. Sua pessoa é um alienado da dor. Pare de viajar!

Olhando para os lados, nosso homem ficou perdido, não entendeu nada.

— Quem é você?

Uma gargalhada ressoa…

— Eu sou o deserto do seu coração.

— Hã?

A voz muda um pouco o seu timbre.

— Seu poetastro! Verme parasita! Sua sujidade é um vírus maldito, Hibernando no livro evasivo.

Continuando…

— Quando era casado, não soube aproveitar. Não viveu! Não reconheceu o amor que tinha em casa, ao seu lado, na sua frente, no seu coração.

— Cala boca! Gritou!

Retrucando…

— Não calo! Sua esposa era uma rameira de primeira. Viviam como duas almas podres. Um casal macabro. Ela mereceu morrer, e seu ser, deve se afogar nas suas lamúrias. Morra logo!

Interrompendo…

— Sua voz maldita, não fale dela! Ela não mereceu morrer. Ela não mereceu morrer. Pare por favor. Em seguida ajoelha-se no chão, abaixa a cabeça.

Por alguns minutos a voz foi dissipada.

14 De Janeiro, 17h54 horas.

Ele já não aguentava mais ficar naquela sala escura. Sua mente ficou perturbada com o que foi dito. Começou a gritar.

— Me tire daqui! Me tire daqui! Socorro…

— Por que faz isso comigo? Seu maldito. Eu vou – te matar!

Neste instante a voz retorna.

— Chega! Vai sair daí quando quiser. O problema é que não quer sair. Quer saber do que um ser humano é capaz de fazer? Dê a primeira derrota para ele. Sua reação o faz ser o que é.

Levantando a cabeça…

— O que está dizendo?

— Estou informando que eu sou você! Sou a voz interior, a voz do coração, a voz da alma. E posso ser a voz da Lívia. Eu sou tudo! Sente – se na poltrona.

Ele levanta e tateando pela sala escura, encontra a poltrona. Senta mais uma vez.

— O que está acontecendo?

Eu vou explicar…

— Eu sou sua defesa, eu sou sua força, sou aquele que nasceu contigo. E aquela que casou como sua pessoa. Eu sou a voz, que quer te trazer para vida.

— Não quero mais viver? Perdi meu amor! Perdi a razão… A voz corta seu raciocínio.

— Você vai reviver. Marco! Está na hora de nascer.

— Eu não quero!

— Eu quero morrer…

Subitamente o local ganha uma pequena clareada.

— Meu serelepe! Acorde meu amor.

Ele reconhece a voz.

— Lívia? Lívia? É a sua voz mesmo?

— Sim, sou eu!

Marco muito nervoso…

— Não pode ser. Eu não estou entendendo mais nada.

— Eu lhe explico. Desde a minha partida, sua pessoa se entregou. Desistiu de viver. Agora, são exatamente, 23h30. Do dia 13 de Janeiro. Você tentou se matar. Tomou vários remédios depressivos. Seu corpo está no chão do banheiro.

— Lívia, não pode ser? Eu fiquei acordado…

— Não! Não, Marco…

— Eu estou morrendo? Quer dizer, que agora poderemos ficar juntos…

A voz de Lívia grita!

— Não podemos ficar juntos. Não neste presente. Eu aproveitei do seu ato, para lhe dizer, quando casei com seu ter, espiritualmente criamos uma aliança. Depois que fui para outro plano. Infelizmente não consigo ser feliz, já que minha metade quer se matar. Amor da minha vida escute com atenção minhas últimas palavras.

A sala fica mais clara…

— Diga Lívia.

— Viver não é fácil! Viver é morrer e renascer em cada vitória, em cada ação, em cada suspiro… Eu preciso que você, Marco! Nasça, renasça, e complete o ciclo.

— Lívia! Sozinho, não posso?

— E quem disse que está sozinho? Estive e vou estar sempre ao seu lado.

— Meu amor, Marco! Tua beleza sempre me encheu os olhos. A doçura de seus atos germinava o que levei de mais belo. O amor! Sua semente foi plantada em mim. Antes e depois que eu disse sim… Viva, Marco! Aproveite esta luz, é a sua chance de mudar algo. Meu serelepe! Sou grata por ter passado tempos maravilhosos ao seu lado. Faça – me viver deste outro lado também.

— Lívia, eu sinto sua falta. Meu copo está vazio, vazio de seu líquido. A bebida encantadora, aquela que me castrava de sentidos, deixando sentir somente o amor. Eu aprecio tudo que vem de ti.

A sala vai ganhando mais visão, e a voz dela… Fica mais fraca.

— Marco! Quando se sentir perdido, vazio, sem direção, acredite… Estarei ao seu lado. Para ser o preenchimento das lacunas, é só sentir nosso amor.

A voz vai se perdendo…

— Lívia!!!

— Amor somente meu, de garras amáveis, com sua malicia, encanta – me e arrasta – me para sua graça.

— Essas palavras estão eternamente em meu coração Marco! Não se esqueça de que a cada minuto vivido, é uma chance de mudança. Eu te amo.

— Lívia!!!

Ele acordou…

Acordou em uma ambulância. Dormiu novamente.

 

15 De Janeiro, 9 horas.

Ele está abrindo os olhos.

— Tenha calma senhor.

Marco mexe a cabeça para o lado, nota que está na cama de uma sala, sentiu uma agulha no seu braço. Passava soro por ela. Uma moça de branco, cuida dele.

— Como está se sentindo senhor?

Meio atordoado, responde.

— Bem.

Olhando para ele questiona.

— Por que tentou se matar?

Com um meio sorriso na face, Marco, expõe:

— Era a única maneira de fazer minha alma sonhar.

FIM

Para saber mais, leia o post anterior: https://regozijodoamor.wordpress.com/2012/11/30/sala-da-esperanca-i/

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