Somente os francos caminham por aqui! A dor…


Ela desceu de um carro em disparada para um beco. Ninguém sabia quem era aquela mulher, mostrava uma face destruída por algo. Ao correr, via-se seus pedaços caindo pela rua. Era tão veloz, que o próprio pensamento se perdia no vento da vida. Foi então que algo a fez parar, um cartão escapou de sua mão. Ela parou, voltou para trás, ofegava tanto, que sufocava com o próprio ar. Parou em frente ao papel, seu corpo ligeiramente desceu de encontro, seus dedos suavam muito, mesmo assim, retirou do chão, olhou com os olhos vorazes de um leão, contemplava a frase que tinha naquele papel.

Solum Francorum pertransibunt“.

Olhou para os lados, viu se alguém estava olhando para ela. Não tinha ninguém, o seu silêncio mostrava o abismo gelado dos desesperados. Voltou a correr… Era um beco, totalmente estreito com um emaranhado de casas, ela seguia seu caminho, tinha apenas uma seta, uma direção. Sua vestimenta, não passava de um vestido bem simples da cor azul. Quando se locomovia, fazia um pequeno gesto, que era de bater na cabeça, ao fazer isto, seu semblante alternava gestos de fragilidade com frivolidade.

Acabou chegando ao possível final. Tinha um fecho de luz. Ela viu um homem, com ar desértico, seus óculos não deixava ver os seus olhos. Ele estava de pé, parecia esperar alguma coisa. Os dois se encararam por alguns minutos. A mulher mostrou o cartão que protegia com tanto esforço.

Neste momento tem – se uma interrupção…

— “Somente os francos caminham por aqui“.

Ela começa a abrir sua boca, forçava algumas palavras.

— O que você disse?

— No cartão da sua mão, tem este significado. Quem lhe deu?

Aliviada, acredita que encontrou quem deveria.

— Uma amiga. A mesma me informou que o senhor poderia – me ajudar.

Desdenhando aquela informação, ele questiona.

— Qual é o meu nome?

Olhando seriamente para ela, esperando alguma resposta. A mulher pronúncia em seguida.

— Deve ser o João Alguém!

Ao ouvir seu nome, o homem da um pulo de alegria, quebrando aquele clima austero.

— Parabéns! Acertou… Gostei de ti.

Só que ela não perde a tensão de seu corpo, mantendo-se da mesma maneira.

— Me afirmaram que sua pessoa poderia – me ajudar!

Percebendo um clima mais pesado do que o normal, João Alguém, resolve agir.

— Repouse um pouco, espírito atormentado!

Apontando para o chão.

— Não quero. Alegava com uma sensatez verossímil.

Ele notando uma estranheza na rudez da mulher, interage mais um pouco.

— Já deve saber que aqui é um lugar único e mágico. Diz, quem és tu?

Ela neste instante, põe suas mãos no rosto, mergulhando em necrófagos pensamentos, trazendo para fora um som, não era harmonioso. Seu ser remontou três anos antes. Conhecendo um homem. Temia amar, mas com ele foi diferente. Ele mostrava um mar sendo aberto pela força de um amor. Seu corpo e sua alma seria dela, era somente dizer sim… Ela o fez!

Casando depois de alguns meses de namoro. Sentia pela primeira vez, protegida pela força de um homem. Seu casamento trazia tantas felicidades, uma harmonia transcendente para se acreditar. Todas as ações dele se resumiam nela. Suas palavras remontavam um espetáculo romanceado do amor, diariamente trazia um presente. Fizesse sol ou chuva, a lembrança havia de estar. Ela se acostumou, que dificilmente via qualquer gesto negativo por parte dele. Exatamente em sete meses, engravidou. Trazendo para ambos e a família, uma felicidade plena. Um menino pedia seu marido, ela como uma boa esposa, reiterava o pedido, deveriam ter um menino.

Com o seu tempo devido e sem complicações, o menino nasceu. Belo e forte, um garotão robusto. Logo, estavam os três juntos na casa. Uma família nascia ali… Ela como uma esposa perfeita transformou-se em uma mãe do mesmo nível, aliás, até melhor. Não existia nada entre eles, ou, com aquela família, que fizesse fazê-los perder a alegria da vida.

Sua mãe que morava no interior de São Paulo foi fazer uma visita dupla. Deveria conhecer seu neto e, fazer uma caminhada ao encontro de um tal profeta ¹. Acabou convencendo sua filha ir junto. Naquela manhã, seu marido as deixou com o seu filho, na casa de atendimento do tal homem místico. Existia uma fila imensa, foram pacientes. Quando chegou a vez da sua mãe, ela quis ficar esperando do lado de fora, o profeta atendia em uma sala reservada, mais uma vez, se sentiu fraca nos argumentos de sua mãe, entrando junto com seu filho na sala.

Assim que adentraram na sala, o profeta as recebeu com braços abertos. No minuto inicial, ele colocou sua mão na cabecinha do menino, olhando em seguida para ela. Questionou se a mesma era a mãe do bebê. Com a confirmação, ele expressou as seguintes palavras…

Mãe, toda vez que algo nasce, alguma coisa fica para trás, chegando a morrer pelo abandono. O novo traz portas se abrindo, e outras se fechando. Por isso, sua escolha vai ser bem evidente. Aceitarás com resignação seu destino? A fase do embrutecimento extinguirá sua maior virtude, que é o amor. Pronta para flor que vai se murchar?

Quando terminou sua profecia, ela sentiu uma sensação que subia pela espinha. Saiu instantaneamente do local, apavorada, agarrando seu filho com a força de trovão rasgando a natureza.

Dias depois, seu filho morreu, em alguns segundos ela virou as costas. O menino, que já engatinhava, foi para a escada, caindo em seguida, quebrando o pescoço. Falecendo horas mais tarde no hospital. Ela foi amparada pelo marido, que tentava conter o desespero da sua esposa. No dia seguinte a criança foi enterrada. No decorrer das semanas, dos meses, tudo mudou naquele casal. A existência de ambos emanava a culpa. Ela principalmente sentia mais do que ele. Seus choros constantes, inúmeras crises depressivas, palavras amargas. A canção que inicialmente brotava do arco – íris, se alterava para uma nênia de anjos e seus cânticos.

Durante um tempo, tentaram manter a família coesa. Foi quando o marido chegou ao seu limite, não suportava mais os devaneios da esposa, o final trágico de seu filho, o fim do amor. Resolveu interná-la no hospital para tratamento. Fazendo isto, tinha a missão de buscar a piedade do perdão. Ela aceitou seu destino, como foi profetizado. No hospital, conheceu uma mulher, que se chamava a viajante. Ela almejava a vitória dos descamisados. Elas ficaram muito amigas, a ponto de, a viajante entregar um cartão e um mapa. Havia uma chance dela buscar sua paz, mudando o rol da sua vida. Deveria fugir dali, encontrar João Alguém e o Garçom. Os únicos que poderiam salvar sua alma. Ela não pensou duas vezes. Fugiu…

— Meu nome é Oceano!

João alguém mostrando ser uma pessoa amável

— Muito bonito seu nome. Esta na hora de desembocar nas cachoeiras da transformação. Desejas isso?

Se mantendo estática.

— É o que eu mais quero.

Ele vira seu corpo, e com seu braço esticado, indica uma porta.

— Talvez sua salvação seja por ali.

Ela sai correndo em direção da porta. Antes de pegar na maçaneta…

— A melodia nunca alcançou o seu fim. Evite transbordar nos seus vícios corporais e morais. Certo! Oceano?

— Sim.

Ela respira mais devagar, entrando pela porta…

Continua…

Quer saber mais:

profeta ¹:https://regozijodoamor.wordpress.com/2012/10/11/profeta/

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4 comentários

  1. Um sentimento tão pleno e sublime se perdem por conta do amor-apego, sabias que o menino iria encontrar em outro mundo, que suas vestes cairia por terra, nada poderia ser mudado, infelizmente não estamos preparado pela perda de alguém que amamos, somos fracos, sentimo-nos impotente diante do rompimento dos laços de sangue.

    Jesus nos mostrou que não há perdas, devemos ser livres de tudo e de todos neste mundo fenomenico. A vida é uma arte de variadas nuances, vivemos de momentos, nada é eterno, sejas na dor ou no amor…Somos passageiros cada qual segue seu destino, em cada parada um caminho a ser percorrido, enfrentamos guerras, lutas, dores, prazeres, enfim, as linhas precisam ser escritas, as folhas necessitam ser recheadas de contos, a morte chega a galope, não há tempo e nem hora, o suspiro derradeiro instala na estante memorial da saudade.

    Sombra de Luz *.*

    • Não posso digladiar com tais palavras! Prefiro manter-me em estado de absorto. As ações decorrentes das perdas, fazem o estimulo da vida se esvaecer pelo ralo finito de nossa cova. Somos uma face já nascida da destruição. Convido-te para ler a continuação Segunda que vem…

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