Medo e Emoção! Parte II


Parte II

A Bartender

Passei boa parte de meu trabalho pensando em um jeito de bloquear aquela ninfeta da minha mente. Principalmente por estar – me impedindo de produzir, pois, como um desenhista de uma revista erótica não posso – me deixar levar pelas influências externas, porque prejudicam minha produção.

Lutei com isso, há mais de cinco horas, para então, começar o primeiro desenho da edição e nada… Tomei mais de sessenta copos de café, buscando na cafeína a concentração necessária para extraí-la de minha cabeça. Porém, ela sempre reaparecia toda vez que piscava. Minha falta de foco era tamanha, que até mesmo o editor-chefe da revista percebeu, ele era um homem de meia-idade, que tinha passado quase toda a sua vida em Havana. Tanto que falava um português muito ruim. Saiu da sala com muita pressa, olhou para mim, tocou em meu ombro e disse:
— Hijo! Faz favor…Falou o bendito enquanto arrumava um charuto cubano de seu estojo de madeira.
Cruzamos a sala de redação, descemos as escadas até chegarmos na área reservada aos fumantes da revista, o editor abriu a porta e fez sinal para que eu adentrasse no local, tirou um isqueiro prateado.
— Puede sentarse… Me gustaria de fala um poco com você.
Após falar aquilo, fez uma pausa, acendeu o charuto e tragou a fumaça fétida. Olhou nos meus olhos e sorriu.
— Sabe que me gusta mucho de seu trabalho, além de fazer desenhos maravilhosos você nunca deixa desviar o foco do que faz, e olha que é difícil até mesmo para mim não desejar as mujeres, só notei que você está diferente… O que tem esta niña?

Olhei-o impressionado, maldito macaco velho.
— No minta para me, fale!
Relatei a verdade para ele sem nenhuma omissão dos fatos, ele ouviu tudo, sem falar nada.
— Eu também passei por isso no passado. Confessou.

— Também perdi um tempo para me adaptar, mas quando consegui, vivi tudo com muita intensidade. Depois de tudo, escrevi um livro erótico, sempre tive a noção de que não iria durar muito.
— Por um acaso, está sugerindo que eu faça o mesmo por você?
— No será preciso hijo. Porque isso dependerá de você, acho que antes de tudo, deveria encontrá-la, ver o que isso vai dar, para enfim, tomar uma decisión. Mas seja lá o que for fazer, faça o que for fazer, volte quando sua cabeça voltar a funcionar.

Eu estranhei a bondade dele, o cara tinha a fama de ser mau-caráter, entretanto, acatei a ideia com gratidão. Fiquei ali por um tempo, até tomar coragem e pegar minhas coisas na sala, sai de lá sem falar com o pessoal, estava pensativo, precisava beber algo, espairecer…

(Vou no bar da Luce) pensando (Ela é sempre uma boa companhia).
Desci a rua Bela Flor e virei a direita, encontrei a rua Luís Goês e entrei na rua Heitor Cunha, cheguei. Parei na frente do lugar e apreciei a paisagem, abri um pequeno sorriso e adentrei no estabelecimento. O bar está cheio, arrumei os meus óculos e fui até o balcão. Luce estava de costas para mim, era uma linda ruiva de cabelos curtos.
— Você veio cedo. Expressou-se ainda de costas para mim.
— Nem tanto coração. Rebati enquanto sentava numa das cadeiras próximas do balcão.
— O que vai ser hoje?
Sorri, afinal aquela era a sua pergunta habitual. Como sempre, respondi a pergunta de forma rotineira:
— Dependendo do meu estado de espírito, é um tipo de cerveja diferente, Luce, vamos lá, faça o que sempre fez, adivinhe…
Luce virou-se para mim:
— Claro, isso é fácil demais.

Com rapidez ela me traz uma ‘Pauwel Kwak’ gelada e a deposita no balcão, com muita elegância, eu pego o copo e lhe ofereço um pouco, ela recusa, não costuma beber em serviço, não me importei com a sua recusa e tomei outras seis por ter resistência aos 8,4% de álcool que cada uma tem.
Conversávamos sobre tudo, política, religião, música e etc. …
Repetindo o ritual. Eu a ajudava a fechar o bar, eu limpava o estoque e ela limpava o salão, além do caixa.
— Obrigada! Você é uma mão na roda. Disse após a conclusão do fechamento.
— Amigos são para isso Luce. Aliás aquela carona no ’49’ tá de pé?
— Com certeza!
O ’49’ era um Fusca conversível fabricado em 1949, foi um dos carros vendidos nos Estados Unidos, Luce era uma apaixonada por automóveis antigos, com preferência de 1950 para baixo. O carro estava conservado e tirando o motor ele era todo original, tanto que, chegamos em minha casa 40 minutos depois.

Ainda estava para chover quando chegamos, sai do automóvel cambaleando, por causa do álcool no sangue. Luce me olhava de dentro do carro dando risadas, o cadeado não queria abrir e não tive alternativa senão arrombá-lo, abri uma risada para Luce, e esbravejei:
— Este é o momento que te convido para entrar e me fazer companhia. Não se preocupe.

— O que você tem de agrado para as visitas? Questionou-me Luce no tempo em que saia do carro.

— Não aceito nada abaixo de tequila, viu?
Luce é uma excelente companheira de copo fora do bar e só perdia para mim em termos de resistência alcoólica.
— Tenho um Daniel’s 12 anos e vodka russa.
Luce entrou e se acomodou numa das cadeiras da mesa, eu tirei um baralho velho e iniciamos uma partida de truco. Durante todo esse período conversamos sobre o nosso dia, ela me falou de sua solidão e eu da ninfeta e meu chefe, Luce era tão boa ouvinte quanto o editor.
— O que pretende fazer agora? Perguntou-me com um largo sorriso irônico.
— Por ora, só procurá-la. Afirmei bebendo mais uma dosagem do Jack Daniel’s… Admito que gostei da imagem de escrever um livro erótico.
Luce descartou mais uma carta e usou as seguintes palavras:
— Acho que você deveria fazer algo mais elaborado. Afinal, você é um desenhista e dos bons… Faça algo mais carnal e real. O que acha de fazer uma história em quadrinhos baseada em seu cotidiano?
— Luce, sou um desenhista, não um retratista artístico, nunca fiz retratos, todos desenhos que crio são imaginados.

Luce levantou-se e rumou ao banheiro, por minha vez, eu continuei a ouvir ‘I Stay Away‘ do Alice in Chains, quando ela me chamou.
— Já vou. Gritei.

Cheguei ao meu quarto e liguei o interruptor, e fui surpreendido.

Luce estava nua em pelo, revelando o seu corpo, seios fartos, pernas grossas, piercing no umbigo e tatuagem na virilha, ela era meio gordinha, mas este detalhe dava uma graça e um ar delicioso ao seu corpo, seu monte de Vênus estava depilado, viajei em seu corpo.
— Então você nunca desenhou um retrato, certo! Disse-me ela, sentou-se na minha cama e fez uma pose bastante sensual, olhou-me de soslaio e continuou…

— Pegue o seu material. Hoje você fará o seu primeiro.

Continua…

Não leu a primeira parte, então, leia agora: https://regozijodoamor.wordpress.com/2012/10/10/medo-e-emocao/

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