Carta – Soar de um grito!


Digníssimo Carteiro!

Fora daqui! Tu não nos pertence, serás banida desta família.

Adentra ao mundo de forma insignificante, um ser tão comum de cor desigual, pai que rejeita, mãe que nega… Lá se foi a pequena em busca do conformismo, jogada num orfanato, sem valor, sem preço, sem documento, chegada a hora da despedida, braços estendidos, face negada, assegurada pelas duas freiras, com olhares maliciosos, incrédulas, assassinas das horas.
Anos se foram, sem nada dizer, crescendo sem medidas, sem família, mas tudo tens sua razão de ser e de acontecer. Entrei num novo mundo de seres desconhecidos, onde tinha mãe, avô e duas irmãs, pai era inexistente.

Cresci sem saber o porquê das coisas, pouco falava, mesmo assim, tentava ser feliz. Conversava com formigas, cantarolava com os pássaros que pousavam nas árvores do quintal de casa. Era como se fosse uma “fadinha” expulsa do mundo da fantasia, apenas quem compreendia era meu avô, infelizmente morrera cedo demais. Fiquei novamente sozinha, minha mãe continuava fria, infelizmente não sabe o significado do amor, detesta a palavra união, eu, não aceitava fazer parte deste mundo de horrores, fui mutilada por uma faca duas vezes na carne e na alma, venci o medo, varias vezes torturadas por agressões e palavras, venci sem conhecer a derrota, sem burlar as leis dos injustos.

Amor me batia constantemente, conheci a dor, a tristeza, a fome, o frio, trabalho forçado, por ironia do destino fui conhecer os livros, ah! Obra mágica dos escritores… Amava estudar, porque lá não apanhava, não sofria, era feliz de uma maneira silenciosa, fugia, corria, pulava a janela para ir a escola, acabou o tempo marcado.

Virei moça e casei em meio a fuga, amor que tinha, foi embora diante da culpa dos meus pais. Fiquei sem aliança, continuei minhas páginas molhadas pelo sal “in” natura dos olhos. Depois anos casada, negada diante de Deus de ser mãe, ufa! Bênção ou maldição? Nem sei dizer, foram longos anos fingindo amar, para escapar do calabouço, que adiantou, fugi do domínio para me entregar ao controlador.

Que vida seria esta, fui culpada? Coisa de carma? Gritei, esbravejei, sai em disparada ao encontro de mim mesma, urrei como fera ferida, alarmando minha alma, despi-me dentro de uma cabine telefônica, sai nua, leve e feliz deixei para traz ficou a sujeira, o nojo, a repugnância dos seres malditos, olhei no meu interior, chorei como nunca, lavei todo meu ser, o ódio, a ira, a mágoa foi dissipando, o tumor que instalava já diminuirá de tamanho, emagreci, retornei a figura de mulher/moça em poucos meses.

RENASCI DAS CINZAS, nova menina/mulher, cheio de cantos e encantos, alegria me beijou, a sede de amar era intensa, os desejos cobriram meu ego, enterrei a sombra do passado.
Hoje madura feita com laços de chita, vestimenta com ar de nobreza, alavanquei ao posto, retornei aos estudos, trabalho em alta, uma casa, um gato e a espera de algo que faça meu coração explodir de gozo.

Onde encontrar a metade que sei estar perto, mesmo estando tão distante, velejo em pensamentos, avisto mais além de mim, o pedaço do retalho que falta para completar a colcha da consumação, será sonho?

Que faço! O amanhecer convida para esquecer e ao entardecer convida para morrer?
Sozinha e solitária estou neste mundo de páginas que vou construindo sem querer estar, olhar quer adormecer, corpo queima em mármore de papel.

Sigo as linhas derradeiras, sem eira e beira, invento a esteira para correr do tempo, coloco algo na prateleira do abismo e caio nos braços da espreguiçadeira, a cadeira me sustenta e a vida desce a ladeira, coração aquecido pela lenha saltitante da lareira. Culpo o AMOR!

 

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