Medo e Emoção!


Parte I

A Ninfeta

Toca o despertador.
Desperto irritado, olho para os ponteiros do relógio e descubro que são quatro da manhã. Começo a pensar — Ótimo! É tudo que eu preciso, meu despertador está funcionando perfeitamente.

— Que saco! Falei para o meu reflexo no espelho.

— Mais um dia por aqui…

Levanto ainda na penumbra, passo a mão pela mesinha da cabeceira, pegando a garrafa de whiskey barato, comprado no bar da Luce, na quinta-feira passada durante minha lamentação. Tinha brigado com Nínive naquele balcão. Escutei ela dizer coisas, para me humilhar e rebaixar minha trajetória de vida. O que me deixou realmente “puto” foi o fato, de ter desperdiçado indícios de amor que senti por um ser humano como aquela “vaca”, que só me humilhou dizendo, que não sirvo para ser o seu homem e que sou um psicopata obcecado. Inclusive já arranjou outro.

Ainda me irrito só de lembrar…

Acabei tomando o conteúdo da garrafa em um único gole… Me olho novamente no espelho. Acabo comparando meu ser com um infeliz, cujo, foi eleito por ela para ter o seu universo. Vejo todos os detalhes de meu rosto, reparo que mesmo com os meus 35 anos, sou superior a ele infinitamente… Olha que estou no escuro de meu ego, porém, na minha opinião, não escondo a falta de entendimento do porquê dela ter escolhido esse tal de Hélder a mim. Acredito que se deve ao fato, dele ser um “cara” que leciona História na rede pública.

Depois de tantos ensejos, volto ao meu ritual.

Forço um sorriso, ligo a luz, adentro o banheiro desnudo, com a garrafa vazia nas mãos. Levanto a tampa do vaso e tento urinar…”As mulheres reclamam, que é complicado sangrar todo mês, imagine mijar com o brinquedinho rijo”…
Não demoro muito e abro o chuveiro, a água está gelada, novamente esqueci de trocar a resistência queimada, pego minha escova de dentes e a pasta enquanto me ensaboava.
4h17, saio do banho. Ligo o rádio, está tocando “Friday I’m in Love” do Cure, a nostalgia foi imediata. Lembrava de tudo que tinha vivido com Nínive, recordo de minha ingenuidade, contando pequenas vitórias que nunca existiram de fato, enquanto me visto e canto junto com o Robert Smith.

4h25, desligo a luz, arrumo meu óculos e a gravata, estou pronto.

Dou uma última olhada na casa e olho para o relógio, desligo a luz e partindo para rua.

Está um frio glacial aqui fora. Sem contar que as ruas só não estavam desertas, porque além de mim, a população se amontoava no ponto de ônibus. Se arrependimento matasse, eu estaria em um caixão. Deveria ter requentado o café de ontem, quando penso em voltar para casa o coletivo aparece no início da via.

Assim que entro no coletivo, se movimenta para frente e quase me derruba no solavanco. Pois, a pressa do motorista é tanta, que deixou grande parte da galera que pretendiam pegá-lo. Tento – me movimentar no rio de faces e corpos imóveis. Quero chegar na catraca, olho para o cobrador e por muito pouco não dou risada de sua cara, o rapaz além de roncar, falava e murmurava abobrinhas, tirando que, não parava de babar.

Depois de uns 15 minutos, busco um lugar para sentar, mas até nas portas tinha gente sentada.
Abro minha mochila, tirando os fones de ouvidos, ligo um “radinho” velho dado pelo meu pai. Coloco na única frequência onde toca Rock n’ Roll. Esta tocando Jimi Hendrix, “Foxy Lady”, fecho o semblante, escuto aquele clássico. Como não quero papo com ninguém, faço pose de mal para espantar os demais… Meu jeito, chama a atenção de todos, aí, viro a estrela no “busão”.
Apesar de incomodado, estou acostumado com os olhares de reprovação do pessoal. Na verdade o que mais incomodava era o olhar de aprovação, vindo do fundo do coletivo, na área dos bancos preferenciais

Tentei olhar para os lados, por timidez ou algo do tipo, depois, olhei para uma garota linda, de no máximo 25 anos, coberta da cabeça aos pés, com um mochilão maior que o meu. Mas descartei essa ideia, deduzi que ela era seguidora do Corão e dos ensinamentos do profeta Maomé, que aliás, considero um sábio que eu gostaria de conhecer…
Demoro um pouco, para voltar os olhos para frente, quando percebo de onde vêm os olhares, meus olhos se encontram com a visão de outra garota, um pouco mais jovem que a islâmica. Deve ter entre 16 e 19 anos, ela me olhava discretamente.

Nós ficamos nos olhando por um tempo e, quando nossos olhos se encontravam sem querer, rapidamente eram desviados fazendo-nos olhar para qualquer coisa no ambiente (ainda sendo muito difícil parar de olhá-la).

Mesmo sabendo que eu corria o risco de ser encarcerado por estar flertando com uma possível menor. Eu sentia atraído por aqueles olhos castanhos, ela era baixa e magrinha (por isso a impressão de ser menor) tipo mignon, seu olhar era penetrante mesmo tendo olhos levemente puxados, boca pequena de lábios delicados, morena cor de canela.

Foi naquele momento que eu entendi o que Humbert Humbert queria expressar sobre “Lolita”. A mais bela ninfeta de sua época! Tenho certeza que se Lolita vivesse nesta era, teria sido desbancada por aquela pequena divindade.

Aos poucos, eu me aproximava dela, mas não tinha noção do que iria falar com ela. Aquela ninfeta paralisou minha mente completamente, sem contar que ainda tinha a possibilidade de apenas “eu” estivesse flertando, ela podia estar tirando sarro de mim.

Passei quase toda a viagem naquela enrolação, trocando olhares e sorrindo, mais nada de um horizonte perdido.

(Tome uma atitude), pensava enquanto olhava para o seu decote. (Seja homem, tenha uma posição). Movido pelo meu pensamento, eu tive uma ideia, com a intenção de motivar a puxar um papo depois.

Apertei o sinal, olhei para ela novamente, abri um sorriso cheio de confiança e disse quase que ao pé de seu ouvido:
— Até mais!
Sim, foi um ato imbecil, para dizer a uma garota. Claro que no fundo, sabia o que estava fazendo.
— Tchau.

Respondeu-me em seguida.

Ok, seria algo normal para uma resposta, se ela não tivesse respondido com o timbre mais sensual que conseguiu.

O coletivo parou, abriu-se as portas e eu desci sem olhar para trás, mas sabia que os seus olhos místicos me seguiam. Sorri sem perceber, no rádio tocava ” Black Hole Sun” do Soundgarden deixei -me levar, cantei mesmo ciente de que a música não tinha ligação com a situação…

Pensei no que Nínive tinha – me dito. Acreditei que era verdade, que eu não servia para ser o homem de ninguém.
Todavia ainda estava na ativa, e o melhor, fazendo sucesso com uma garota bilhões de vezes melhor.

Toni Le Fou

Continua… Quarta – Feira!

 

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8 comentários

  1. Um ritual a altura de quem gosta de suspense, inquietou o meu pensar, adentrei no seu texto para visualizar as imagens, o gosto do desgosto de ter surrado o sentimento daquela que desnivelou, fez com que enxergasse outras investidas, olhares caçam pensamentos, desejos vestem túnicas de outras origem…fantasiamos as frações de momentos para eternizar o prospecto invocado do amor.

    sombra de Luz *.*

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