Carta de um Injustiçado


 

Eu tenho uma existência fracassada!

Carteiro,

Andei acompanhando seus passos até aqui. Repensei loucamente, antes de enviar minhas palavras. Eu tenho uma história lamentável para retratar ao mundo.

Até o momento, 35 anos, sendo que, durante três anos, eu estive preso.

Eu fui levado a prisão em 2009, acusado de assassinar um homem. Me recordo pouco da noite do crime, estava bêbado, minha esposa tinha terminado nosso casamento, alegava que minha inutilidade era gritante, onde ela não via um futuro brilhante ao meu lado. Lá se ia, cinco anos de casamento. Quando fui convidado a sair de casa, fiquei louco, não aceitava, fui para um bar distante de onde morava, queria afogar minha dor, no leito do álcool.

Bebi que nem um insano, ao final, nem aguentava ficar de pé! Sai pelos fundos do bar, foi quando vi, um rapaz sendo morto a facadas por outro. Foi tudo muito rápido. Minha cabeça girava, uma sensação angustiante, dores forte, vômitos, algo semelhante a torturas do inferno. Depois dos minutos iniciais de náuseas, fui até o rapaz, ela estava no chão, sem vida, escorria muito sangue, sua barriga estava toda rasgada. Peguei no rosto dele com uma mão, e a outra coloquei na barriga, sujei todo meu corpo com tanto sangue. Olhei para lado, mas não tinha muitas forças para pedir ajuda, notei a arma branca usada, fiz a besteira de pegar. Quando apareceu uns caras que saíam do bar, ficaram assustados com a cena. Chamaram a polícia, não fugi…

Fui preso em flagrante. Havia impressões de digitais minhas por todo o corpo e na faca. No bar, disseram que eu nunca tinha ido naquele local. Fizeram o absurdo de afirmar, que foi meu ser discutiu com o morto, momentos antes de ser atacado. Quando voltei ao normal, não acreditava onde estava. Sendo acusado de um crime. Minha antiga esposa, na delegacia dava sinais positivos que eu poderia fazer aquele ato. Fui julgado e condenado a doze anos… No início gostei, seria o melhor para sanar meus lamentos. Queria cortar da minha mente aqueles pensamentos de derrota.

Depois de algum tempo preso, voltei a ponderar minha inocência. Pois, eu vi o inferno! A cada dia, cenas revoltantes de impunidades, meu corpo se ouriçava por cada segundo no presidio.

Eu via pessoas chegando vivas, saindo mortas. Teve uma vez, que houve uma rebelião, fiquei com tanto medo. Pensei na morte em vida, meus sonhos dissipados, acabei chorando… Passou! Na minha rotina, eu era calado, ninguém me percebia. Ali dentro, conheci as drogas, usei e abusei para fugir da realidade. O temor era gritante.

Como relatei no início, sai três anos depois da minha entrada. Prenderam o verdadeiro assassino, que confessou aquele crime. Acredita nisso? Capturaram o verdadeiro culpado! Antes de sair, fui levado a uma sala, pediram para calar a boca, não processar o estado. Se fizesse, eles me caçariam. Sabe, não quero fazer nada…

Faz alguns meses que estou livre. Não tem sentido a vida aqui fora, não trabalho, vivo isolado na casa da minha mãe, me drogo diariamente… Tenho imagens do espectro do inferno me matando, meu corpo caindo no fogo, sendo consumido aos poucos pela minha insanidade.

Não tenho mais motivos para viver, oculto tudo que ocorre comigo, sou um homem livre de tudo e de todos. Carteiro das Lamentações, tenho pena de você! Rogo por minha alma encontrar uma saída. A senhora que me botou no mundo diz que eu deveria procurar ajuda. Para que…!? Quando olho no espelho, tenho uma vergonha horrível do que me tornei, do que vivo… Sou um refém do meu próprio pesadelo!

No momento, nem sei se irei ver qualquer resposta que pode dar. Talvez, eu me mate! Talvez, não! O meu problema é ter uma existência fracassada!

Vou arrumar meu leito.

 

 

 

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