Somente os francos caminham por aqui!


Em uma comunidade periférica de São Paulo, acontece mais uma inusitada cena.
Perto de uma das várias ruas, para um carro, parecia ser recém-saído da fábrica, sua beleza ainda era visível, e a limosidade, algo excêntrico. O motorista saiu e, abriu a porta de trás. De lá, sai um homem, com um terno Calvin Klein, sapato reluzente, com ar de esnobe. Ele cochicha algo para seu motorista. O mesmo entra no carro, indo embora em seguida.
Aquele senhor, que caminhava com a mágoa no peito. Entra entre as casas, toda a comunidade é feita de becos. Após algum tempo andando, chega em um local. Na frente daquele corredor, tinha uma pequena placa no chão com a seguinte citação: “Solum Francorum pertransibunt“.

Ignorou e seguiu em frente… No final daquele estreito emaranhado de construções, percebe, que a um homem sentado. Na sua frente, apenas um fecho de luz.

O que da para notar, é que, o homem é um maltrapilho, franzino, cabeludo. Devido ao desgasto físico, tem em média uns trinta anos. Porém na realidade, tinha sete anos a menos. O oposto do senhor que se pôs na frente dele. Além de estar bem vestido, notava uma classe diferenciada, uma certa elitização descabida para o local.

Ouve-se uma pequena fala, vindo daquele que estava sentado.

— Saia da frente do meu sol.

Indignado com a arrogância daquele homem da rua, cuja presença dele, deveria ser uma honra.

— Como assim? Levante-se para falar comigo.

Ordenou o luxuoso homem.

— Não leu a placa no início do corredor.

Rebateu o maltrapilho.

— Tentei ler, mas não entendi nada.

O homem da rua levanta sua cabeça, dando uma risadinha “sarcástica”.

— Desculpe senhor. Se nossa intelectualidade é abaixo do que esperava. A placa dizia em latim, a seguinte coisa: “Somente os francos caminham por aqui“.

Com um olhar de menosprezo.

— Era isso!? Imaginei…

— Não caçoei da gente. Pela última vez, peço, saia da frente do meu sol. Engrossando a voz.

O homem luxuoso não entende o pedido.

— O que esta luzinha insignificante pode – lhe trazer?

Saindo ferozmente da terra, se elevando numa velocidade incrível, usando suas mãos para encaixar no pescoço engravatado.

— Preste atenção! O insignificante aqui é você. Pensa, só porque, tem dinheiro, bens materiais, anda arrumadinho, pode vir no meu local e, diminuir a essência da luz. Jamais! Seu ser, é uma carniça para mim. Dentro deste espaço, és um cachorro, quer ser ajudado, aja desta maneira. Senão, volte de ondes veio…

Com a respiração ofegante, com muito medo.

— Certo. Desculpe, vou sair da sua frente.

Depois da eventualidade inicial, o diálogo foi reiniciado. Antes, apareceu um gato preto, sua face era feia, parecia ter alguma doença. Independente disso, o homem sentou-se apreciou o pequeno espaço de luz, com o gato no seu colo.

— O gato é do senhor?

Feliz, respondeu enfaticamente.

— Sim, é meu e de todos. O seu nome é Gato Ingrato¹.

Não muito interessado no gato, reiniciou o que ele tanto ansiava.

— Como posso – te chamar?

— Quem desejas saber?

Com uma sensação estranha, olhava para os lados e ninguém aparecia. Acabou engolindo a seco sua saliva.

— Sou David! Dono da empresa, Conceitos Melhores Company. Muito Prazer!

— Sou João alguém. Dono de mim mesmo. Excêntricos Desprazeres…

Depois das devidas apresentações, David, resolveu dizer o que realmente queria.

— Senhor João… Foi interrompido.

— João Alguém, por favor.

— Desculpe. Senhor João alguém, fiquei sabendo por um amigo político, que sua pessoa vende coisas raras.

Acariciando o gato, confirma com sua cabeça o que estava acontecendo.

— Sim, eu vendo. Seu amigo fez a coisa certa. Virou Governador, não foi?

— Virou! Com a maior margem de votos da história política do nosso país.

O maltrapilho continuava rindo.

— Eu não votei nele.

João alguém, tira de baixo dele, um pano sujo, coloca do seu lado, e pede para o empresário sentar.

— Sente-se David. Aprecie o sol ao meu lado.

David, incomodado com aquela conversa, ressorve não discordar e senta imediatamente.

— Olhe para está linha de luz, que ultrapassa os buracos da parede até chegar aqui. Quer Saber, porque eu valorizo tanto esta luz?

João alguém, pega nas mãos de David eleva até onde o sol bate.

— Feche os olhos David. Sinta a luz na sua pele.

David faz o que foi mandado. Realmente algo estranho acontece. Um calor nunca sentido por ele invade seu corpo.

Alguns segundos, ele abre os olhos, sentindo uma sensação estranha.

— O que aconteceu?

O Gato Ingrato¹ começa a miar e, avança para as mãos do empresário. Com um certo receio, ele tenta afastar o gatinho.

— Venha para cá gato assanhado. Ele não vai – te ajudar.

Puxou o gato até seu colo novamente.

— David, o que sentiu, é o que valorizo. Este sol enfrentou muitas barreiras para chegar até aqui, nunca desistiu, cada fresta que ele pode passar, passou… Assim, chegou até mim, pleno. Claro que de tanto superar obstáculos, envolveu-se entre os gigantes. Esta pequena luz, é de um gigante. O que deseja deste sol? O que deseja de mim, David.

Olhando seriamente para João alguém, ele expressa o que marca sua alma.

— Como disse, eu sou um grande empresário. Minha marca expande brilhantemente, no aspecto profissional, fico rico cada vez mais. Venho de uma família totalmente estruturada e muita próspera. Infelizmente, minha esposa foi embora, por eu ter traído ela com outra mulher. Joguei a confiança dela em um poço sem fundo. Inicialmente, pensei, que ultrapassaria esta ausência. Mas não consigo. Não existe limites para expressar o quanto ela faz falta.

— Já foi atrás dela, David?

Com lágrimas em seus olhos.

— Sim, já fui… Ela nem me deu importância. Justificou o seguinte: O dano é imensurável para simplesmente me perdoar. Afirmou, que ela me perdoa, mas sua alma, não. Agora sou um lacaio sem bando.

Ouvindo atentamente, João alguém responde.

— David é a sua dor, seu destino, seu erro, o que um homem da rua como eu pode fazer para lhe ajudar?

O empresário tira as mãos do maltrapilho de cima do gato, e pega nelas.

— Meu amigo político se referiu a ti, como um salvador, o libertador da dor. Eu lhe dou o que for preciso. Se preferir, minha riqueza é sua!

João alguém extrai a mão de David das suas.

— Sua riqueza aqui, não é nada. O que conquistou, apenas trouxe maldição. Isso que és, um amaldiçoado.

David começa a apelar para um sentimento que germinava em seu peito.

— Por favor, João alguém, não aguento mais essa crueldade. Eu renego tudo de ruim que eu fiz, sou uma anomalia da vida. ERREI! O arrependimento entardece minha cura, o que sou eu sem minha dama? Ninguém! Me rastejo aos seus pés, se você tem a minha salvação, me ajude…!

O maltrapilho afasta o gato, se levanta. Tira de seu bolso um papel amassado, feito em uma folha parda.

— David, você conseguiu – me convencer. Sua reflexão mostra o quanto somos pequenos diante da vida. Vou ver, o que devo ter para ti.

Ele abriu o papel todo. O empresário enxugava seu rosto, das lágrimas que escorriam por sua face. Ao mesmo tempo, demonstrava uma certa curiosidade. O papel tinha algumas coisas escritas.

— Vamos lá, vou ler, e escolher o que és viável para ti.

— Número um: Sala da Esperança². É próximo daqui! Deixe eu ver… Não.

David suava muito, parecia estar correndo para o infinito.

— Número dois: Sombra². O Ambrósio iria gostar da sua personalidade… Mas, Não!

— Número três: O Carteiro Das Lamentações³. Deixe eu ver, acredito que sua pessoa não precisa de cartas.

— Número quatro: Líquido Simplicitate.

João alguém, olhou nos olhos trêmulos de David. Consentindo com a cabeça.

— Este! O seu pedido é o Líquido Simplicitate.

O luxuoso homem, que de luxo já não existia mais. Pois, já tinha tirado a parte de cima do terno. Vidrou naquela palavra Líquido Simplicitate.

— O que é este líquido?

O homem guarda o papel no bolso e responde.

— É a famosa bebida da franqueza! Por milênios muitos desejavam toma-la, poucos conseguiram…

— Para que serve?

— Para salvar sua alma, seu amor, sua vida…

David ficou pensativo, mas questionou.

— Quanto custa?

O maltrapilho vai em direção ao fim do beco. Existe uma porta. Olha para trás.

— Nada. O verdadeiro valor é você quem dá. Simplesmente se almeja mudar sua vida, entre por aquela porta.

— Depois? Indagou David.

— Esqueça o depois. Pense no momento presente. Pense no agora, David.

Ele toma coragem e vai na direção da porta.

— Só preciso entrar e beber este líquido?

João alguém estava com um belo sorriso.

— Sim.

— Vou – te ver novamente?

— Nunca mais David.

O empresário levanta sua mão em direção a João alguém, na esperança de haver uma retribuição.

— Obrigado por enquanto, João alguém.

O homem da rua retribui o gesto da mão. Em seguida, David, coloca a mão na maçaneta da porta e, antes de abrir, houve o último conselho.

— Cuidado com o garçom.

Contínua…

Quer saber mais:

Gato Ingrato¹: http://www.esperandoporvoce.com/2012/03/agora-conhecam-historia-do-gato-ingrato.html

Sala da Esperança²: http://www.esperandoporvoce.com/2012/07/sala-da-esperanca.html

Sombra²: http://www.esperandoporvoce.com/2012/03/tua-imagem-i.html

O Carteiro Das Lamentações³: https://regozijodoamor.wordpress.com/2012/09/02/apresentacao-carteiro-das-lamentacoes/

Ilustração: Toni Le fou

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