Carta de um anônimo


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Não sei por onde começar. Apenas quero garantias que ninguém vai saber quem eu sou! E nem me questionem, minha vontade é manter o anonimato.

Carteiro das Lamentações, eu já fui a diversos locais para me tratar, psiquiatras, psicólogos, terapias em grupo, fiquei internado. O ápice foi tentar – me matar… Diante de tudo que envolve o que aconteceu comigo, saiba que desisti desta vida.

Tudo começou quando eu tinha nove anos. Meu tio (irmão de meu pai), era afastado da família. Ele tinha acabado de sair da prisão, quando mais jovem foi assaltar um banco e acabou sendo preso. No momento que ganhou a liberdade, ele bateu lá em casa. Ninguém queria saber dele, menos meu Pai. O lado de irmão mais velho falou mais alto, e este homem foi morar conosco, temporariamente. Na casa, tinha meus pais, eu e minha irmã de dois anos.

Inicialmente tudo ia bem, até que, um dia eu fiquei sozinho com meu tio, os meus pais tinham ido levar minha irmã no pediatra. Ele bebia muito. Alegava que era porque ninguém dava oportunidades de emprego. Eu fui tomar meu banho, quando sai, fui para o meu quarto, no exato instante que eu colocava minha roupa, aquele maldito entrou no quarto, e subitamente, jogou-me na cama e me molestou! E não foi a única vez…

Antes de mais nada, tinha medo. Nunca contei para meus pais, aquela agonia só acabou dois anos depois. O desgraçado foi roubar um bar da região, na fuga se deparou com a polícia, trocou tiros e foi alvejado. Morreu na hora. Nunca quis contar para meu pai. Guardei isso dentro de mim.

Só que, eu fui crescendo e não conseguia – me relacionar com ninguém, nenhuma menina me atraía. Eu tinha pavor do meu corpo. Me enojava o ato sexual. Aos dezoito anos, meu primo e alguns amigos, fizeram uma festa surpresa. Levaram-me a um lugar desses, sabe? Onde se obtém prazeres sexuais fáceis.

O lugar externamente brilhava tanto, mas quando entrei, muitas luzes em meus olhos… Meu primo e os amigos foram na frente, pareciam conhecer o local. Eu apenas analisava, reservaram uma mesa, e várias mulheres sentaram nela, depois de algumas bebidas, eles começaram a toca-las com tal intimidade, que eu me sentia mal. Toda cena que meus olhos constataram, fizera o sexo ficar mais asqueroso do que era para mim. Um a um, foram se levantando e saindo com uma mulher ao lado.

Foi aí, que algo aconteceu, veio meu presente, uma moça. Ela se aproximou da mesa, eu não tinha chance de escapar. Iniciamos um diálogo, pretendia enrolar o quanto podia. O nome da jovem era Matilde. Iniciei a reparar que ela me lembrava uma amiga da infância: Morena, cabelos cacheados e pretos, olhos castanhos, um sorriso lindo. Abaixo do queixo uma pequena cicatriz. Voltando para a conversa. Em cada lacuna minha, ela penetrava com falas de cunho sexual, eu fui tomado por algo estranho, pensei em fugir, me senti uma lebre quando foge da caça. Levantei-me… Fui procurar a saída. Meu primo me impediu, disse que se fosse obrigado, ele mesmo com os amigos me forçariam a ficar com Matilde.

Então me embebedei, bebi tanto, que tirei coragem de não sei onde. Parei no quarto dela, com meu primo e os amigos gritando para eu não decepcionar meu pênis. Eu fiz o ato. Foi tudo tão pervertido, tão podre.

Depois disso, eu não tinha mais valentia para me enfrentar. Meu corpo era algo tão obsoleto, eu piorei. Estacionei minha vida em remédios e médicos.

Hoje eu tenho vinte e dois anos. Não namoro, sou sozinho, não tenho desejos sexuais, não tenho nenhum estímulo para sair de casa. Sou isso. Um frustrado!

Sei lá porque enviei esta mensagem para ti, vai ver, precisava desabafar.

Obrigado, Anônimo!

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